O terror da realidade cotidiana

O senso comum costuma esperar que filmes de terror tratem sempre sobre monstros e coisas sobrenaturais, mas o desgaste do gênero tem obrigado autores criativos a buscar novas formas de causar medo. Assim, filmes recentes, que muitas vezes a crítica insiste em chamar de pós-horror (termo bastante duvidoso), buscam no drama humano e na realidade cotidiana o pavor e a monstruosidade necessários para dar continuidade ao gênero.

A literatura nunca sofreu com isso. O fantástico como alegoria do real, por exemplo, sempre foi um tema caro aos autores hispano-americanos. E é na tradição de seus conterrâneos — contistas argentinos como Borges, Cortázar e Silvina Ocampo — que a escritora Mariana Enriquez mantém a tradição com inegável firmeza.

Os 12 contos de As coisas que perdemos no fogo (Intrínseca, 2017) trazem temas e personagens em si só perturbadores: assassinos de crianças e crianças assassinas, casas e apartamentos assombrados, lendas urbanas e fantasmas da ditadura argentina.

As histórias se aproximam muito do realismo contemporâneo, e, em quase todas, temos a impressão de que falam a respeito do cotidiano de qualquer cidade da América Latina. Contudo, o terror vai se instalando de pouco em pouco, como uma infiltração em um edifício antigo, como um pequeno delírio, até preencher de vez a realidade.

Mesmo declarando-se fã de Stephen King, Mariana escolhe trilhar um caminho diferente do mestre do terror. A sutileza com que instala seus temas torna sua literatura muito mais refinada, e talvez justamente por isso, quando ela acerta, acerta em cheio, criando uma atmosfera tão perversa e assustadora que funciona tal qual uma teia de aranha: quando o leitor se dá conta, já está enredado, e algo maligno está vindo dar o bote.

Os destaques são para o conto “O menino sujo”, que abre o livro, e que cria uma atmosfera densa e macabra logo de cara. O ponto forte do livro, um dos contos mais perturbadores, é “O quintal do vizinho”, cujo fechamento causa realmente um embrulho no estômago.

Os contos de Mariana, quando mostram de forma crua ou fantástica a realidade da Argentina, tangem principalmente os abismos sociais: a periferia, a criminalidade, a poluição e o passado autoritário são temas recorrentes, e não raras vezes incorporam-se aos temas clássicos do terror, criando algo completamente novo, uma espécie de terror político.

Uma forte demonstração dessa amálgama aparece no conto “Sob a água negra” , que parte de uma denúncia social para ressoar elementos lovecraftianos.

Entretanto, o livro não é só louros. Embora tenha sido bem recebido e até aclamado pela crítica brasileira, há muitos pontos em que seus contos decepcionam. Mariana é de fato uma escritora de mão cheia, com uma prosa límpida e convidativa, porém, como contista e associada ao gênero do terror, acaba falhando em alguns aspectos-chave.

Um dos problemas mais graves da obra é a tentativa de Mariana de criar finais em aberto para suas histórias, que não funcionam (pelo menos para mim) e parecem mais uma simples falta de fechamento. É como se ela iniciasse uma série de narrativas complexas, detalhadas e grandiosas, com excelentes premissas e personagens bem construídos, mas simplesmente as abandonasse à deriva ou ficasse com preguiça de concluí-las. A sensação na maior parte dos contos é que foram deixados pelo caminho.

Em alguns casos, as histórias que Mariana cria parecem não caber no gênero conto, como no texto que dá nome ao livro “As coisas que perdemos no fogo” , que parte de uma premissa muito interessante e é esmagado pela falta de desenvolvimento. Essa é claramente uma história que merecia ser contada num romance, no entanto é desenvolvida em pouquíssimas páginas, e a superficialidade natural com que ela é tratada acaba transformando um enredo potencialmente perturbador numa história inverossímil.

A coletânea de Enriquez vale a leitura, embora possa decepcionar os fãs de contos ou de terror em um ou outro ponto. O mais estusiasmante nesse livro, entretanto, e no qual ele verdadeiramente brilha, é a maneira como ela introduz o horror (às vezes natural, às vezes sobrenatural, às vezes dúbio) em meio à mais do que terrível realidade cotidiana.

⭐⭐⭐⭐ 4/5

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