O terror da melancolia

A literatura de horror brasileira está muito bem servida, obrigado. Entretanto, muito do que é produzido atualmente por nossos autores acaba girando em torno do fantástico, do gore ou mesmo do caricato, e são poucas as obras que atingem um grau de maturidade dramática, elegância e sofisticação como a do escritor e pesquisador Oscar Nestarez.

Em Bile Negra, seu romance de estreia, publicado pela editora Pyro em 2017 e vencedor do prêmio ABERST, ele nos carrega não apenas por um mundo de visões horroríficas, situações macabras, violência e medo, mas também através de uma jornada psicológica bastante carregada de drama humano e camadas profundas de significação.

A premissa do romance explora a teoria humoral, iniciado por Galeno na Grécia antiga e que perdurou nas práticas médicas até a medicina moderna, no século 17 (no Brasil, até mais tarde), na qual o corpo humano é constituído de quatro líquidos — ou humores — essenciais: o sangue, que rege o emocional; o fleuma, que rege a racionalidade; a bile amarela, que rege a raiva; e a bile negra, que rege a melancolia.

Esse é o ponto de partida de Nestarez para desenvolver uma história de pandemia, morte e loucura, que cria uma consonância aterradora com o momento atual, algo que provavelmente o autor sequer esperasse.

Na história, acompanhamos a vida de um típico jovem adulto, Vex, que após a morte do pai passa por uma fase de forte depressão e conflito com sua psiquiatra. Com o apoio de seus amigos e o retorno de um antigo caso amoroso, ele narra seu retorno à rotina após o luto e a terapia insatisfatória.

Quando volta a trabalhar, na tradução de um livro para a editora de um amigo, acaba se envolvendo com uma obra obscura chamada Bile Negra, que investiga a metafísica por trás da teoria humoral. Paralelamente, vemos se desenvolver uma misteriosa epidemia que torna os infectados como se destituídos em seus próprios corpos, levando os personagens a um cescente estado de tensão, pavor e às vezes delírio. A relação entre vazio e a melancolia torna-se então mais do que apenas metafórica, e cria laços sinistros com a vida dos personagens.

Uma das grandes sacadas dos livro é fazer o leitor duvidar do que está lendo, questionando-se o tempo todo o que é real na história e o que se passa apenas na cabeça do protagonista.

Com personagens verossímeis, quase de carne e osso, muitas vezes esquecemos de que se trata de um livro de horror e quase mergulhamos numa realidade urbana muito parecida com a nossa do dia a dia, até sermos acordados e atacados de supetão pelas cenas bizarras que põem em xeque nossa própria sanidade.

Nesta obra, Oscar Nestarez se consolida como um dos mais profícuos escritores de horror da literatura nacional, confirmando a grande potência de seu livro anterior, Horror adentro, e garantindo um lugar entre os autores de gênero que mais merecem atenção atualmente.

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