O terror de engolir o que nos faz mal

Volta e meia nos deparamos com aquelas histórias que transpõem as fronteiras dos gêneros e nos fascinam pela sensação nebulosa que nos deixam. Muitos filmes de horror recentes têm causado esse estranhamento, a ponto de haver uma longa e inconclusa discussão sobre a existência de um “pós-horror”.

Swallow, filme de Carlo Mirabella-Davis lançado em 2019, que recebeu erroneamente o título Devorar em português (lançado em 2020 no Brasil), leva essa discussão ao limite. Até que ponto podemos assisti-lo como um filme de horror, um drama psicológico ou uma narrativa weird? Provavelmente podemos assisti-lo das três formas acima e talvez outras mais, sem nenhum prejuízo ao que se espera de um bom filme. Swallow é, de qualquer forma, uma das mais gratas surpresas do cinema de terror recente.

A premissa é simples e por si só impactante: desesperada pelo vazio de sua vida, Hunter (com performance excepcional de Haley Bennet) é a esposa de um jovem milionário que desenvolve a peculiar compulsão de engolir objetos. No começo são inofensivos, como uma pequenina bolinha de gude, mas, à medida que a compulsão aumenta, passa a lidar com objetos perigosos, de um alfinete até uma pilha, até uma espécie de chavezinha de fenda. Há ainda um agravante: ela está grávida, e o bebê importa mais à família de seu marido (e ao próprio marido) do que a saúde ou sanidade de Hunter. A solidão, a falta de privacidade e domínio sobre a própria vida, o desespero da norma, tudo leva Hunter a se refugiar no ato de engolir objetos, o único estado em que se sente no controle.

Embora não haja elementos sobrenaturais, violência física ou mortes na primeira metade do filme, a sensação de que estamos diante de um filme de horror é clara. A direção de arte e de fotografia belíssimas ajudam a causar essa sensação, que de alguma forma lembram o terror colorido de Suspiria ou Midsommar. A narrativa é tão densa, perturbadora e sombria que os sentimentos de angústia, tensão e horror perpassam todo o longa.

É genial e sutil a forma como o título (o mais apropriado seria “engolir” em português) cria a dimensão dupla da história, apontando para a premissa visível (a compulsão da personagem) e metafórica (o trauma do passado que ela engole, isto é, recalca em seu subconsciente) e vai se desenrolando como um novelo da metade para o fim.

Há, claro, a dimensão do devorar, que norteia a tradução do título em português, já que Hunter (“caçadora”) necessita comer para se sentir no controle, para saciar seus desejos. A função simbólica da gravidez toma forma nessa dimensão: a de quem precisa engolir para expelir.

A cena final, em que Hunter confronta seu trauma, é tocante e poderosa, um esplendor. Altamente catártica. Bennett está perfeita no papel dessa esposa linda e aparentemente fútil, que passa os dias assistindo a cenas violência culinária e jogando games bobos no celular. Sentimos toda a dor de uma mulher que engoliu sua dimensão mais profunda para servir de bibelô a uma família de egocêntricos.

O último plano, em que o filme apresenta uma longa sequência enquanto sobem os créditos, vemos uma diversidade inimaginável de mulheres transitando em um banheiro, cada qual com seus desejos, com suas repressões, com suas fomes domadas por uma sociedade que naturalizou seu lugar domesticado. É inevitável passar a essa cena sem se perguntar o que cada uma daquelas mulheres engole diariamente, e o que estão prestes da devorarem.

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