O terror de M. Night Shyamalan

Hoje em dia é muito comum os fãs se posicionarem a favor da safra de filmes de horror autorais, que optam pelo suspense, tensão e drama no lugar de jumpscares baratos. Lembro de quando A bruxa de Robert Eggers foi laçado, em 2016, e o público do horror se dividiu entre aqueles que odiaram o filme, acusando-o de ser enfadonho e de não causar medo, e aqueles que compreenderam sua proposta e o colocaram no patamar de horror artístico e revolucionário.

Estou do lado do time que adora filmes de horror psicológico, simbólico, lento e tenebroso, mas ainda me sinto incomodado com esse caráter inovador que atribuem aos filmes recentes, esquecendo-se de diversas outras produções que, ao longo das décadas, optaram por esse caminho mais sinuoso.

Um dos cineastas mais subestimados nesse sentido é o indo-americano M. Night Shyamalan, que ficou mundialmente famoso em 1999 com O sexto sentido, filme que apavorou e surpreendeu o grande público, levando ao cinema muitas pessoas que sequer tinham interesse por filmes de fantasmas. Acontece que, devido a sua estreia avassaladora, uma enorme expectativa foi jogada sobre seus ombros, com um público insaciável sempre esperando por sua nova história de final surpreendente.

Eu vejo gente morta

Bem, Shyamalan entregou três excelentes obras depois disso: Corpo fechado (2000), Sinais (2002) e A vila (2004), mas a cada novo filme o público que esperava pelo próximo O sexto sentido foi se decepcionando com as reviravoltas mirabolantes do indiano. A partir daí, ele foi despencando degraus com A dama na água (2006) e Fim dos tempos (2008), onde se espatifou de vez, recebendo várias framboesas de ouro (espécie de Oscar para os piores filmes).

Em 2015 ele volta ao gênero com A visita, um filme assustador e bizarro que passou praticamente despercebido entre os fãs, e só retomou atenção quando lançou Fragmentado, em 2016.

A carreira de altos e baixos de Shyamalan, no entanto, é guiada muito mais por seus pequenos deslizes do que por seus triunfantes acertos. Os expectadores o condenam por suas esquisitices mais do que o gratificam por sua originalidade, indicando que a mentalidade do público de horror ainda estava fechada bem antes de Rober Eggers e Ari Aster (de Hereditário e Midsommar) popularizarem a polêmica do “pós-horror”. Até hoje esse público prefere referir-se à obra de Shyamalan como filmes de suspense e não de horror, privando o diretor de entrar para o rol do gênero.

Particularmente, acho Sinais e A vila duas obras-primas do cinema de horror. Há muitos deslizes de roteiro e direção nesses filmes, é claro, mas esse é o preço pelo caráter autoral e original de um cineasta que formou boa parte de seu olhar a partir de Bollywood, a esquisitíssima (para o gosto ocidental) indústria cinematográfica indiana.

Sinais: um suspense perfeito (até a cena final)

Em Sinais, Shyamalan conta uma história de invasão alienígena global a partir do ponto de vista de uma família transformada pela morte da mãe, vivendo isolados numa casa de fazenda e cercados por um assustador milharal. Basicamente, ele transformou plots como o de A Guerra dos Mundos e Independence Day num terror intimista e minimalista, mesclando drama, suspense e até humor de forma magistral.

Por mais que as pessoas se lembrem de Sinais por sua desastrada cena final (em que vemos um alienígena feito de CG fajuto), parecem se esquecer que todo o resto do filme, até chegar naquela cena, é basicamente uma aula de estrutura de suspense. Cada cena vai se encaixando na outra com perfeição e construindo o medo como um muro de tijolos, até o pavoroso momento em que a casa é invadida pelas criaturas.

Mesmo subestimado, Sinais influenciou praticamente todos os filmes de alienígenas posteriores, assim como uma dezena de filmes de suspense que se passam dentro de casas isoladas.

Devemos lembrar também que sem A vila jamais teríamos A bruxa. O filme de Eggers inspira-se descaradamente da obra de Shyamalan, como nas longas tomadas de árvores, os ruídos arrepiantes vindos da floresta, as casinhas, famílias e tradições sufocantes, o jogo de luz e sombras, a juventude libertadora, o ser de manto vermelho que caminha entre as árvores etc. As referências são tantas que nem teríamos como citar todas.

A vila: estética que inspirou A bruxa de Robert Eggers

É uma pena que Shyamalan seja tão desvalorizado hoje em dia, num momento em que esse cinema de horror que preza pelo tom autoral esteja tanto em evidência. Talvez seja um grande momento para reconsiderar e reavivar a obra do diretor, e que ele venha a brilhar novamente com sua forma única de escrever e dirigir filmes que (pelo menos para mim) causam um medo tão esteticamente prazeroso.

Até lá, vale conferir Servant, a série de terror psicológico produzida por Shyamalan para o canal de streaming Apple TV+, que já chegou na sua segunda temporada. Em breve vai ter resenha dela por aqui também.

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