O terror de Bruno Ribeiro

por Irka Barrios

É muito comum eu levar um soco no estômago quando sou apresentada aos personagens do escritor Bruno Ribeiro. Nunca é uma cena tranquila, um chá com biscoitos amanteigados num jardim de temperatura amena e iluminação do fim da tarde. Nunca! Meus episódios de interação com os personagens do Bruno são violentos, por vezes degradantes, e descambam para situações inesperadas, como o mais maluco dos sonhos. São personagens que dizem coisas que eu não quero ouvir.

Fecho o livro, desconcertada. Quando retorno, de escudo e capacete, repito a mim mesma: “calma, o personagem não pode saltar da página e te agredir”. É que o Bruno tem essa agilidade narrativa, esse dom de nos jogar para dentro da história com um empurrão nada sutil. Assim, criamos laços e, quando menos esperamos, o personagem é nosso chapa. Claro que não falo de gente normal, bonitinha, comportada. Os chapas que Bruno nos apresenta são pirados, intensos, inconsequentes. Gente que precisa de alguém que segure, o tempo todo, seus ímpetos. De alguém que diga: “para, meu, para que vai dar merda”.

Assim estive, lado a lado, com as irmãs de seu livro “Zumbis”. Habitantes de um mundo repleto de opressão, falta de perspectivas e agressões sexuais, as irmãs conseguem, por fim, sua vingança. E, de repente, a vingança ultrapassa o aceitável (“parem, meninas, já deu”) e continuo lá, agarrada a elas, tentando segurar uma força desmedida.

Em “Febre de enxofre” a sensação é diferente. A antipatia pelo personagem central, Yuri Quirino, foi instantânea. Carente e arrogante, ele é capaz de comportamentos nada exemplares para suportar o abandono (Luciana, sua namorada, aceita um trabalho no Rio e parte, logo no início da trama). Sem o menor indício de culpa, Yuri a trai, suga a criatividade de prostitutas transexuais, dá piti em festas, se acaba em bebida, comprimidos e drogas.

A vida esvaziada de significado empurra o poeta aclamado pela crítica (mas com a despensa vazia) para uma tentativa de suicídio. Yuri fracassa e agora está ainda mais fodido. E é então que ele aceita a oferta do misterioso Manuel di Paula, um homem que o persegue e o bajula. Estabelecido em Buenos Aires, Yuri deve escrever a biografia de Manuel di Paula. Só que (claro) tudo é bem mais complexo e aterrador. Para contar sobre o rumo pouco convencional que Yuri Quirino toma para ter seu nome escrito na galeria de poetas célebres, Bruno Ribeiro usa imagens provocadoras, metalinguagem e cenas desconcertantes. Funciona, e muito bem.

Celebridades e sede por reconhecimento também é tema do terceiro livro de Bruno. “Glitter” relata a crueldade, a mesquinharia, a inveja e a desumanização que ocorrem nos bastidores do mundo da moda. Três narradores (Eva, Lana e Viddi) contam a preparação de um grupo de top models para o gran finale: um desfile em que as modelos, após lerem um poema de autoria própria, se suicidam no meio da performance. O que conto aqui não é spoiler, desde o início Viddi nos revela seu plano.

Com diversos problemas de autoestima, vício e transtornos alimentares, as modelos aceitaram fácil o desafio de se confinarem dentro de um shopping por um ano. E aos poucos são levadas a acreditarem que o show é o ponto alto de suas vidas. A linguagem que acomoda, por vezes na mesma frase, palavras como brilho e fezes, glacê e vômito, antecipa que o livro se trata de um relato sobre as mais luxuosas e as mais humilhantes experiências humanas. Lembra um pouco “Pornocracia”(2017), documentário que mostra a degradação que a indústria de filmes 18+ sofreu na era digital, quando a máxima “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” inundou as webs (a baixa e a da superfície) com vídeos cada vez mais, digamos, ousados.

Tudo em “Glitter” é fake, e pode ser que o mundo tenha girado tão rápido que nos aproximou perigosamente desta realidade absurda. Em 2020, viver dentro de uma enorme mentira é algo que seduz. Cada vez mais personas.

“Bartolomeu” é o quarto livro de Bruno (ô menino que produz) e foi lançado ano passado, somente na versão e-book. É o melhor, na minha opinião, porque noto um Bruno mais maduro, talvez mais seguro, tanto a respeito das cenas em que a violência é aceitável, quanto na habilidade de manipular o leitor (ao contrário de Yuri Quirino, Bartolomeu é um personagem que nos atrai).

Bartolomeu é um assassino de aluguel, mas não pense num cenário do velho oeste ou de alguma cidadezinha bruta do sertão brasileiro. O assassino de Bruno é urbano, veste-se com ternos bem cortados, usa dreadlocks coloridos de azul e, neste ponto, sim, como era de se esperar, é frio e muito competente. O melhor no que faz.

Em “Bartolomeu” também há a multiplicidade de narradores, uma escolha por vezes caótica que nos traz diferentes versões do mesmo fato. O fascínio dos demais personagens por Bartolomeu é algo marcante na narrativa, até porque nos apropriamos deste fascínio. A história é narrada de forma cinematográfica, ora com cores quentes, ora com tons frios, como azul e lilás, como se estivéssemos acompanhando as aventuras de um homem com super poderes numa tela que mistura filme de ação com desenho animado. Porque sim, “Bartolomeu” tem muitas cores.

Recentemente tive o privilégio de ler “Como usar um pesadelo”, livro de contos do Bruno Ribeiro que sairá pela Caos & Letras ainda neste ano. Este novíssimo livro abre com o excelente conto “A arte de morrer, ou Marta Díptero Braquícero”, premiado no I Concurso Brasil em Prosa da Amazon (2015).

Num momento em que (como já foi referido) o mundo gira tão rápido e os acontecimentos da semana passada soam como muito antigos, pode, um conto de 2015, parecer ultrapassado. Mas não, a falta de perspectiva e a solidão crônica seguem temas atualíssimos. E nos contos subsequentes Bruno inova, se reinventa. Aponta o olhar para os horrores da realidade que 2020 esfregou na nossa cara. O tom continua violento, mas notamos menos ação e mais reflexão. As ações, quando narradas, se originam de um personagem mais desenvolvido, um ser em desespero, disposto a se vingar do mundo opressivo.

Considerei o livro mais reflexivo de todos, com especial interesse ao uso de narradoras mulheres. Chamo a atenção para os contos “Sucesso”, que traz um olhar muito crítico à proliferação dos insuportáveis coaches e “Talvez seja o paraíso”, uma reinvenção da série que nos apresentava o horror de um mundo sem ninguém. “Como usar um pesadelo” tem um tanto de catarse, outro de bálsamo. Um livro para acordar quem está em paz e adormecer quem tem raiva.

Após escrever este texto, soube que Bruno se classificou nas semifinais do III Concurso ABERST de Literatura 2020: “Bartolomeu” na categoria Livro Policial e “Zumbis” na categoria Suspense. Comemoro junto o reconhecimento destas obras tão originais.

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