O terror de não conhecer o outro

por Ismael Chaves

“Nunca sabemos realmente os pensamentos do outro.”

Uma mulher, cujo nome e idade não sabemos, viaja com seu namorado Jake, no carro dele, em direção à casa dos seus pais, em uma fazenda. Ela, apesar de gostar de Jake, acha muito cedo para conhecer a família dele. Até porque existe o pensamento. O pensamento de acabar com tudo. Mas há algo errado. Uma tensão que pode ser sentida no ar, nos movimentos e nas convicções. Talvez eles não se conheçam o suficiente. E talvez seja tarde demais para voltar.

Essa é a premissa do livro Eu estou pensando em acabar com tudo, do escritor canadense Iain Reid. Simples e extremamente instigante, a começar pelo título emblemático, que suscita algumas teorias na mente do futuro leitor.

A primeira metade do livro é um legítimo “road movie”, com a ação transcorrendo inteiramente dentro do carro, com o casal. Sob a escuridão da noite, entre florestas antigas de árvores retorcidas e neve cobrindo a estrada, assumimos a mente da narradora, que nos apresenta lembranças, dúvidas, segredos e conversas existencialistas com o namorado.

Essa primeira metade do livro é marcada por um ritmo lento, em que pouca coisa acontece. Porém, esses momentos servem para causar um sentimento de estranheza no leitor e a sensação de que há algo algo errado nessa viagem e entre os personagens, ainda que o leitor não consiga identificar o que é.

Essa expectativa cresce ainda mais quando, finalmente, o casal chega na fazenda dos pais de Jake. A partir daqui, o leitor, assim como a narradora, entrará num cenário desconhecido, onde absolutamente nada é o que parece e cada gesto, movimento, diálogos ou objetos parecem esconder um terror inamaginável. Se a primeira metade do livro pode ter entendiado o leitor pela falta de ação, a partir daqui o terror invadirá de vez as páginas, numa espiral frenética de medo e loucura.

Diferente do que o leitor possa imaginar, a trama do livro vai muito além da simples sinopse. Alguns personagens entram e saem na narrativa como “fantasmas”, trazendo consigo dúvidas e temores no leitor, que, assim como a personagem principal, se vê cada vez mais sozinho e desnorteado num labirinto onde absolutamente nada é o que parece, onde cada caminho te leva ainda mais para um abismo do qual o fim pode não ser a melhor, mas inevitavelmente a única saída. O final é explosivo. Um grito de catarse que acompanhará o leitor por muitos dias após a leitura.

“Acho que muito do que aprendemos sobre os outros não é o que eles nos contam. É o que observamos”.

Iain Reid cria uma história sombria, com uma atmosfera angustiante que agarra o leitor com unhas e dentes.

Eu li a maior parte desse livro à noite e, confesso, não sentia uma sensação tão sufocante e assustadora desde “Amityville”, de Jay Anson. Acredite: o epíteto “hitchcockiano” promovido pela Editora Rocco é justificado.

Recentemente, a Netflix divulgou uma adaptação do livro pelas mãos de Charlie Kaufman, responsável pelos roteiros de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Quero ser John Malkovic. A escolha parecia acertada, levando em consideração o tipo de história a ser contada e a carreira do cineasta. Infelizmente, Kaufman já afirmou que o filme será uma adaptação totalmente livre da obra, alterando drasticamente algumas ideias essenciais de Reid, e substituindo o terror psicológico por um drama/suspense.

De qualquer forma, o filme estreia no dia 4 de setembro, na Netflix.
Se puder, leia o livro antes. Com as luzes apagadas, se tiver coragem!

Eu estou pensando em acabar com tudo
Iain Reid
Tradução: Santiago Nazarian
Editora Rocco, 224 páginas

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