O terror de alimentar o lobo

por Irka Barrios

Começa com badalos de um sino, dois toques, o primeiro mais leve e o segundo um pouco mais intenso. Logo depois aparece o campanário de uma igreja de tijolos antigos, provavelmente da época medieval, que emerge solitário de dentro de um lago. Curon é o nome da cidade em que se passa a nova série da Netflix, uma produção italiana com belíssimos cenários e trilha sonora marcante. A primeira cena mostra Anna, a mãe, dirigindo à noite por uma estrada erma. Dentro do carro estão Daria e Mauro, seus filhos adolescentes, irmãos gêmeos. Fugindo do ex-marido, Anna traz os filhos de Milão para conhecer o avô. Ninguém está de acordo com a decisão de Anna, nem mesmo seu pai, Thomas, que sequer conhecia os netos.

O reencontro com Anna é frio, distante, desde o início Thomas deixa claro que não os quer ali. Ele vive num hotel, ou no que restou do hotel, que teve um passado suntuoso. Aqueles aposentos hospedaram nobres da Áustria, Anna explica para Daria e Mauro assim que eles largam as malas na recepção. Mas a ruína tomou o lugar após muitas tragédias, suicídios e assassinatos, incluindo o da esposa de Thomas, cometido por uma Anna recém libertada da infância. São informações bastante pesadas para um primeiro capítulo e logo se intui o que a série quer dizer.

Está mais do que óbvio que Daria e Mauro são contrários à mudança, odeiam Curon e sonham em voltar para Milão. Mesmo assim não relutam, respeitam a decisão da mãe. E vestem suas armaduras para enfrentar o primeiro dia de escola. Surdo, Mauro se mostra mais vulnerável, enquanto Daria assume a personalidade de garota durona, indispensável para quem quer ser respeitada na selvageria que é o meio escolar adolescente. Após as apresentações protocolares, a professora fala sobre o mito dos dois lobos que habitam o nosso ser: um bondoso e civilizado, o outro selvagem e vingativo.

E Curon, numa interpretação alegórica, é exatamente sobre isso: as escolhas e renúncias que delimitam os caminhos que tomamos. Ou ainda, numa visão mais crua: a oscilação entre viver domesticado ou assumir os riscos de mandar às favas as amarras que nos são impostas.

Na série, entretanto, o momento da dúvida é mais explícito. O personagem ouve o soar do sino que vem acompanhado de uma terrível dor de cabeça. É o sinal de que algo não vai bem. Em seguida, uma cópia sua, de aparência idêntica, surge de dentro do lago. A cópia vem determinada, quer tomar o lugar do original, busca a liberdade de fazer tudo o que o original abdicou. Num primeiro momento, desconfiamos que as cópias, ou sombras, ou doppelgänger, são as versões do lobo mau de cada personagem, como o filme “Nós” (Jordan Peele, 2018) aborda com muita competência. Mas depois descobrimos que não. Trata-se de algo mais complexo.

“Eu sei que ela não é minha mãe. Mas é estranho, porque eu percebo que ela me ama”, diz Mauro a certa altura. É complexo, duro, porque tem a ver com nuances de personalidades, tanto da nossa própria quanto das pessoas com quem convivemos. É humano. Poderia a sombra de Anna assumir a vida da original sem comprometer o afeto pelos filhos? A série nos faz acreditar que sim. Mas, e as outras escolhas? As consequências que levam a outras consequências? A ausência de freios na intenção de tomar as rédeas da própria vida não causaria um strike, uma avalanche de destruição que atinge a todos que a rodeiam?

Então notamos que Curon é, também, sobre culpa. A palavra, inclusive, é utilizada em exagero nos últimos episódios. Impunemente cristãos, os moradores da pequena cidade vivem sentindo culpa. As casas decoradas com as imagens de Cristo crucificado e as velas acesas logo que o sol se põe (“é para afugentar as sombras”, explica Thomas ao seu neto) contrastam com as cabeças de animais exibidas como troféus e (é claro) os rifles de caça.

Excesso de crença, comportamento belicoso e culpa: uma mistura explosiva que nos leva a um assunto bem conhecido, não é? Então seja bem-vindo, Mr. Hyde, entre e tome assento, porque o papo chegou até você.

O duplo é um tema antigo que foi amplamente explorado na Literatura Gótica. Grande parte das histórias de horror do século XVIII aborda o duplo, embora “O médico e o monstro”, de Stevenson, seja a que traz o tema para o centro do romance. Numa noite maldita, ao beber uma poção com poderes mágicos, Dr. Jekill descobre a dualidade absoluta e primordial do homem. O resto da história todos sabemos, o médico educado e respeitável durante o dia se transforma num ser agressivo e repugnante quando o sol se põe.

Muito já se escreveu sobre o tema, na crítica literária, na filosofia, na psicanálise, etc. É um tema instigante e concordamos que não é surpresa o fato de sociedades muito reprimidas buscarem expurgar a culpa de querer ou de sentir algo que não se encaixa no padrão aceitável para a época. O duplo surge como o gozo da culpa, a catarse. São comportamentos humanos que, a despeito da evolução do pensamento, se repetem, e é por isso que ele nunca deixa de ser um tema atual.

De volta à Curon, gostaria de realçar algumas homenagens ao mestre Kubrick que percebi. Klara (a professora) arrebentando uma porta a machadadas no melhor estilo Jack Torrance (Jack Nicholson em “O iluminado”), e os corredores do hotel, que não é o Overlook mas, assim como seu precursor, guarda muitos segredos em seus quartos agora vazios.

Também acho interessante jogar luz sobre o comportamento da personagem Daria. É visível sua transformação, o que a torna uma das mais interessantes. Daria inicia a série mais livre, aberta, sem a obrigação de classificar os seus afetos. Prova disso é o envolvimento com Micki, sua colega de turma, numa noite de bebedeiras à beira do lago. Conforme os episódios avançam, Daria assume uma personalidade mais tradicional, de garota típica do interior, virgem e um tanto romântica. Uma das questões que me tomaram quando cheguei ao fim foi: teria Daria sucumbido à magia secreta de Curon? A doppelgänger presa sob a superfície gelada do lago me faz acreditar que sim.

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