O terror que habita a floresta

Por Ismael Chaves

“Nas terras frias e desoladas do Sul do Brasil, no final do século 19, Anna Schutz, a jovem filha de um pastor, é obrigada a abandonar seu sonho de ser escritora para se casar com um homem rude e violento. Sozinha na vastidão da mata e cercada por uma presença antiga que se esconde no fundo das árvores, ela conhece a misteriosa e decidida Mathilde, envolvendo-se num ritual que a levará para o canto mais profundo de si mesma.”

Essa é a sinopse de A Floresta, novo lançamento do escritor gaúcho Daniel Gruber, e o primeiro de sua carreira a abordar a temática do terror.

Partindo de suas pesquisas para a tese de doutorado em Escrita Criativa, Daniel se deparou com relatos assombrosos acerca de bruxas brasileiras nos séculos 17-19. Mas o mais perturbador disso tudo é traçar um paralelo, 200 anos depois, com a atual situação socio-política e perceber o quanto esse terror é real e assombra milhares de mulheres pelo Brasil todo até os dias de hoje.

Vivendo em uma colônia alemã na Serra gaúcha, Daniel utiliza-se deste espaço e de seu rico folclore para construir uma narrativa crível e perturbadora, ao mesmo tempo em que apresenta temas indigestos, mas importantes, como violência doméstica e intolerância religiosa.

Não se engane. Por trás de monstros na floresta e rituais demoníacos, o autor deixa explícita sua mensagem: ser parte de um determinado grupo social ou biológico, pode ser muito mais assustador do que seres imaginários.

Anna, assim como muitas mulheres de antes e de hoje, vivem um verdadeiro inferno na terra, ao verem seus sonhos e direitos reprimidos por convenções baseadas em princípios religiosos e um patriarcalismo ultrapassado, que vêem no medo uma arma física, psicológica e espiritual para garantir e justificar todo tipo de abuso e terror, em nome da “moral e bons costumes”.

Os homens, neste livro, agem como lobos ferozes, sedentos de luxúria e autoridade, que não pensam duas vezes em esmagar e “devorar” os sonhos, a esperança e a própria existência de Anna, como mulher e ser humano. Obras transmídias como O Homem Invisível e Bom Dia, Verônica já nos mostraram todo o horror advindo de relacionamentos abusivos, e A Floresta não poupa palavras para descrever todo o medo, angústia, desespero e raiva que o trio Anna, Johannes e Mathias nos fazem sentir.

Outro ponto que chama muito a atenção é a inserção, na narrativa, de elementos que dialogam com os contos de fadas.

Para muitos, isso pode parecer incoerente com um livro de horror, mas, como o pesquisador Alexander Meireles da Silva nos lembra: “os irmãos Grimm desenvolveram suas histórias a partir dos registros de narrativas alemãs coletados em meio a camponeses, pequenos comerciantes e outras pessoas de origem simples no campo e na cidade. (…) Inicialmente a obra era voltada para o público adulto em virtude da presença de elementos grotescos, violentos e de forte teor sexual, remetendo a sua origem no meio popular.”

Dois irmãos enfrentando uma bruxa maligna, um lobo à espreita na floresta, um caçador misterioso… É justamente essa intertextualidade que nos absorve para dentro desse universo, cercado de florestas escuras, superstições antigas e o medo do desconhecido, e nos permite identificar onde o verdadeiro mal se esconde. Afinal, nessa atmosfera de opressão e loucura, a catarse vem com um preço e uma indagação:  o que você seria capaz de dar pela sua liberdade?

No excelente artigo E eles viveram assustados para sempre, os pesquisadores Oscar Nestarez e Nathália Xavier Thomaz ressaltam a atemporalidade dos contos de fadas e como eles estão enraizados em nossos maiores medos e defeitos:

“(…) nessas narrativas, o medo é um ingrediente fundamental, já que sua própria estrutura (personagens empurrados pelo destino rumo ao desconhecido) é bastante assustadora. Além disso, elas costumam carregar muitos dos elementos que hoje são constitutivos da ficção literária de horror, como abandono, violência, assassinatos, canibalismo, criaturas monstruosas, entre tantos outros.”

Daniel Gruber

O QUE HABITA A FLORESTA?

“Pense bem antes de dar o próximo passo, pois se você entrar na floresta, a floresta entrará em você.”

Em seu livro The Uses of Enchantment: The Meaning And Importance of Fairy Tales, Bruno Bettelheim aponta o significado da floresta na literatura fantástica:

“Desde os tempos antigos da floresta quase impenetrável no qual nos perdemos tem simbolizado o escuro, o oculto, o quase impenetrável mundo do inconsciente. Se perdemos a noção que deu estrutura à nossa vida passada, agora deve-se encontrar o caminho para se retornar a nós mesmos, e ao ter entrado nessa selva com uma personalidade pouco desenvolvida, buscamos a saída conseguindo encontrar em nosso caminho uma humanidade muito mais desenvolvida que emerge.”

A jornada de Anna pela floresta é uma busca por seu verdadeiro “eu”. Como qualquer personagem na literatura ou cinema, o livro termina com uma Anna diferente daquela que conhecemos no início da leitura.

A questão é que tudo o que vemos dela nesse processo, já estava lá, desde o princípio. Psicologicamente, a floresta não transforma ninguém, apenas desperta e expõe o que há de melhor e pior dentro de nós. Assim, nesse simbolismo junguiano, a floresta — lugar de mistérios, do primitivo, onde antigas religiões cultuavam a natureza e seres ancestrais, onde a sobrevivência requer sacrifícios — a parte inconsciente da mente humana desperta em seu estado mais primitivo e nos confronta com nossos maiores medos.

Nas mãos de alguém sem essa bagagem cultural, o resultado poderia ser medíocre. Mas, nas mãos de alguém como Daniel Gruber — que já explorou e dissecou o lado mais selvagem e podre do ser humano no ótimo Animais Diários — essa experiência se torna intimamente inesquecível para o leitor.

Mas não pense que A Floresta é só um apanhado de referências ou uma adaptação sombria de algum conto clássico. Nada disso! O autor utiliza desses arquétipos para construir sua própria história, em um intrincado quebra-cabeça cheio de reviravoltas, que mexe com os medos pessoais de cada leitor. O medo do desconhecido. O medo do outro. O medo de nós mesmos. Em certa medida, todos nós somos o herói e o monstro em nosso próprio universo complexo. 

E o verdadeiro terror é descobrir que, afinal, a floresta habita dentro de nós. Por isso, A Floresta é, sem dúvida, o melhor livro de terror de 2020.

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