O terror das assassinas em série

Por Daniel Gruber

Embora a maioria dos assassinos seriais registrados seja de homens (cerca de 90%), as mulheres também deixaram um rastro de sangue na história. Em Lady Killers, a escritora e editora americana Tori Telfer relata alguns desses casos reais marcantes e reivindica o direito das mulheres de serem puramente más.

Isso mesmo. Para Telfer, a criminologia sempre se mostrou condescendente com as assassinas mulheres, rapidamente justificando seus atos por amor, vingança ou desequilíbrio, no máximo as queimando nas fogueiras como bruxas, para darem o exemplo às moças que saem da linha. Telfer enxerga aí uma tentativa do universo masculino de nunca afastar demais as mulheres daquele estereótipo maternal e passional que definem a natureza feminina exemplar.

Na introdução do livro, quase como um manifesto, ela escreve:

“Normalmente, mulheres são vistas como seres unicamente capazes de cometer homicídios reativos — homicídios em autodefesa, uma explosão de amor, um desequilíbrio de hormônios, um momento de histeria —, e não homicídios instrumentais, que podem ser maturados, calculados e executados a sangue-frio.”

Não somente essa visão subestima a mulher como, muitas vezes, atrapalha as investigações de um crime, afirma a autora. Desfazer essa incredulidade, portanto, é um trabalho necessário tanto para a área criminal quanto para os estudos feministas.

É verdade que o modus operandi das mulheres serial killers ao longo da história foi preferencialmente o envenenamento — uma arma silenciosa, limpa, letal e facilmente manipulável por indivíduos que, tradicionalmente, sempre ficaram relegadas ao ambiente doméstico. Contudo, Telfer demonstra que, assim como os homens, as mulheres também podem ser frias, violentas, sádicas, sanguinárias e cruéis, e que entender esse lado da natureza feminina é importante para desobjetivá-las, para compreender a dimensão ampla e complexa de sua psicologia.

O livro apresenta uma série de casos escabrosos, de mulheres capazes de estripar homens grandes enquanto se disfarçam de boas esposas. Antes mesmo de Jack, O Estripador, por exemplo, Mary Ann Cotton já aterrorizava as ruas de Londres e, acredita-se, tenha matado três ou quatro vezes mais que o assassino cuja fama ofuscou o caso da “Mulher Maldita”.

A autora destrincha em profundidade 14 histórias reais de assassinas em série de diversas épocas, e buscou trazer casos pouco conhecidos, recolhidos em livros de história, registros antigos e jornais de época, evitando se manter em casos populares e já bastante explorados, como os de Aileen Wuornos (uma das mais conhecidas, retratada no filme oscarizado de 2003, Monster: Desejo Assassino).

Sem jamais ser condescendente ou romântica com as personagens que apresenta, e cuidando para não cair numa fantasia de meninas más, Telfer expõe uma galeria de mulheres singulares que horrorizaram a sociedade em sua época e foram rapidamente esquecidas pela história dos crimes (apenas mais uma das histórias das quais os homens gostaram de tomar para si).

Além dos casos principais, a edição ainda traz uma porção de material extra, com galeria de casos famosos, uma lista de filmes e séries sobre mulheres assassinas, bibliografia e lista de artigos e leituras sobre o tema. O livro é um dossiê completo para quem quiser estudar sobre o assunto ou mergulhar de cabeça nesse universo.

A edição da DarkSide Books está belíssima como sempre, embora minha única ressalva seja que ela funcione no oposto daquilo que prega o texto: enquanto o dossiê sobre psicopatas masculinos é recheado de imagens macabras e chocantes, este é todo decorado com rosa-choque e ilustrações caricatas, quase fofinhas, como se o tema, de fato, não fosse levado muito a sério. Com certeza esse trabalho visceral da Tori Telfer merecia uma edição menos condescendente.

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