O medo de não ter as respostas

Por Ismael Chaves

[AVISO: Este texto contém spoilers!]

Foi o escritor americano H.P Lovecraft quem me fez entender que o que mais me fascinava no gênero Terror não era o monstro ou a revelação bombástica de um segredo maligno. Não eram as respostas. Pelo contrário, eram as perguntas. O medo, a hesitação, a dúvida de não saber o que havia no escuro, embaixo da cama, dentro do armário ou no interior de uma floresta noturna ou uma casa abandonada.

Se por um lado, questionar ou fazer perguntas é o que move o ser humano na direção de novos avanços científicos e filosóficos, também é verdade que o “desconhecido” o aterroriza. Ao deparar-se com a dúvida, com o diferente, o ser humano é tirado de sua zona de segurança mental e, não sendo capaz de compreender o mistério, é negado o seu poder de controle. Em seguida vem o medo, o terror, o desespero e, por fim, a loucura.

As Perguntas, publicado em 2017 pela Cia. das Letras, é o quarto livro do escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, que o escreveu sob encomenda da produtora RT Features, responsável pela distribuição dos emblemáticos filmes A Bruxa, O Farol e Quando Eu Era Vivo, e isto já diz muito sobre o que esperar deste livro.

As Perguntas narra a história de Alina. Desde pequena, ela enxerga sombras e vultos, mas, aferrada à racionalidade transmitida por seu pai, ela se acostumou a considerar as aparições como simples vestígios de sonhos interrompidos. Adulta, ela fez doutorado em história das religiões e é especialista em tradições ocultistas, mas tudo que conseguiu foi arranjar um emprego tedioso em uma empresa publicitária, onde passa o dia todo editando vídeos comerciais.

Certo dia, um telefonema da delegacia desarruma sua rotina de tédio programado. A polícia suspeita de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. A única pista disponível é um símbolo geométrico desenhado por uma das vítimas.

A primeira metade do livro, intitulada “Dia”, tem um ritmo arrastado, onde acompanhamos a rotina tortuosa de Alina, em meio a flashbacks e monólogos sobre o quanto sua vida é um desperdício total dentro daquele escritório.

Creio que, até aqui, a intenção do autor era demonstrar, através do sensorialismo, como a vida de Alina era tediosa mesmo. Mas é interessante fazer um exercício aqui e entender como o horror pode ser exprimido de formas variadas e pessoais. O próprio tédio de uma vida frustrante de trabalho odioso e sem realizações pessoais, também configura-se, na minha opinião, em horror. Um horror existencialista.

Afinal, o que pode ser mais assustador do que chegar à maturidade ou velhice e começar a fazer perguntas como “Por que eu ainda estou trabalhando em algo que eu detesto?” ou “Por que nunca fiz nada verdadeiramente útil na minha vida?” Quem nunca sentiu agonia ao ler, por exemplo, A Metamorfose (Franz Kafka) e A Morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstoi), retratos alegóricos de uma vida vazia programada unicamente para atender aos ditames da máquina capitalista?

Cansada dessa rotina, Alina passa a questionar sua utilidade em um mundo que é muito maior do que sua mesa de escritório e decide utilizar seu conhecimento acadêmico para desvendar, por conta própria, o mistério por trás de uma estranha seita ocultista, ainda que nada a tenha preparado para o que está por vir.

São esses questionamentos, juntamente com os traumas pessoais vividos pela personagem, mais o seu interesse por religiões ocultas, que move todos os acontecimentos na segunda metade do livro, intitulada “Noite”.

É importante destacar aqui o auto consumo de drogas e álcool pela personagem no decorrer do livro, que se passa quase totalmente em 24hs. Esses elementos refletem o estado psicológico da personagem, colocando em dúvida sua sanidade, que assume aqui o eu-lírico da narrativa, ao confessar que a primeira metade do livro até então narrada em terceira pessoa era ela o tempo todo.

Após localizar o tal grupo pela internet e entrar em contato com eles, Alina parte para uma reunião cerimonial na casa de um dos membros da seita, e é a partir daqui que a narrativa ganha agilidade e tensão, ao colocar o leitor na pele de Alina e compartilhar de suas inquietações, dúvidas e medo durante o encontro com os estranhos membros da seita e partir rumo ao desconhecido.

Há uma cena emblemática de um ritual, que é, sem dúvida, o grande destaque do livro, e que acaba mal (ou bem?) sucedido, quando Alina percebe que uma “sombra” foi liberada e agora está presa à ela.

Nas próximas páginas, o leitor sentirá, de forma muito intensa, todo o medo e descontrole que tomam conta da personagem. Percorrendo desesperadamente as ruas da cidade, à noite, em busca de respostas, nenhum conhecimento adquirido em sua vida parece capaz de elucidar suas perguntas.

Não sei dizer até que ponto “a sombra” era real ou não. Afinal, Alina já a via desde pequena, antes dos traumas e bebidas.

Talvez (e isso é uma opinião pessoal), a “sombra” simbolize, simplesmente, todas as dúvidas, “as perguntas”, que Alina sempre carregou consigo. Ela sempre recebeu respostas prontas, automáticas (como a maioria de nós). Sua descrença e a busca por respostas genuínas vivem em conflito, já que uma insiste em anular a outra constantemente.

As Perguntas é um título bem apropriado. O final casa perfeitamente com toda a proposta do livro, já que não entrega respostas. Ao menos, não a que o leitor espera encontrar. Afinal, sempre teremos perguntas. Uma pergunta leva a uma resposta, que gera outra pergunta, que adiciona novas perguntas. E, não é isso que nos move, afinal?

A boa literatura, independente de gênero, não entrega respostas, mas suscita perguntas. Fazer questionamentos é, a partir disso, buscar construir ferramentas que possibilitem possíveis respostas. Que ocasionarão novas perguntas. O que Antônio Xerxenesky parece sugerir aqui é que, para aquelas perguntas que nos atormentam interiormente, a única opção é buscar as respostas dentro de nós mesmos, entregando-nos às nossas próprias “sombras” (perguntas)?

No excelente livro “Fantástico Brasileiro: O Insólito Literário do Romantismo ao Fantasismo”, os pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano e Enéias Tavares apontam que o “horror cult”, marcado pela forte presença do cotidiano, é

“um horror nascido de obras de alto teor experimental, tanto do ponto de vista da estrutura narrativa, quanto do ponto de vista da linguagem […] nota-se igualmente o apagamento dos monstros tradicionais, em benefício de elementos sobrenaturais mais sutis, cuja existência pode ser contestada.” (pág. 157)

Xerxenesky consegue construir uma ótima atmosfera de medo, paranóia e terror, ao questionar os limites entre razão e religião, cultura e crença. E é aí que reside sua força: As Perguntas é assustador na medida em que é realista.

Infelizmente, o livro não ficou muito conhecido porque o público do horror não está ainda preparado para uma história questionadora e existencialista. Noto que esses temas estão tendo mais aceitação no cinema, mas na literatura ainda está longe.

O que não deixa de ser irônico, já que o cinema não inventou essa fórmula. Apenas aprendeu a transpor para as telas algo que já era praticado, há séculos, na literatura, por nomes clássicos como M.R James, Arthur Machen, Algenorn Blackwood, Ambrose Bierce, Robert W. Chambers e o já citado H.P Lovecraft.

No Brasil, nomes como Oscar Nestarez e Santiago Nazarian vêm resgatando essa essência original do medo, do horror puro, ao desconstruir conceitos e clichês impostos por Hollywood nas últimas décadas. E Antônio Xerxenesky é, sem dúvida, um nome a ser conhecido e destacado nessa arte maldita de provocar o medo. Ou, ao menos, de provocar perguntas inquietantes.

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