O Terror de Oz Perkins

Por Ismael Chaves

Osgood Perkins é um desses diretores que — ao lado de Robert Eggers (A Bruxa, O Farol), Ari Aster (Hereditário, Midsommar) e Jordan Peele (Corra!, Nós) — tem resgatado as origens do terror clássico e apresentado histórias que vão muito além do cinema convencional com seus sustos baratos e tramas previsíveis. Para quem nunca ouviu falar do cara, ele é filho de ninguém menos que o ator Anthony Perkins, o eterno Norman Bates do clássico Psicose (curiosamente, Oz interpretou um pequeno Norman num flashback em Psicose 2) .

THE BLACKCOAT’S DAUGHTER (2015)

The Blackcoat’s Daughter (também conhecido por February, e batizado aqui com o título mequetrefe A Enviada do Mal!) é seu primeiro filme e, resumindo superficialmente para não dar spoilers, conta a história de duas garotas que ficam presas no colégio durante as férias de inverno, quando as coisas começam a dar muito errado.

Apostando em uma narrativa lenta, porém carregada de uma atmosfera estranha, fria e sufocante, Oz vai isolando os personagens (e o espectador) cada vez mais em um ambiente claustrofóbico, cercado de neve e solidão, ansiedade e medo.

Dividindo a história sob três pontos de vista (um deles só fará sentido no final), Perkins subverte elementos clássicos do gênero numa obra altamente perturbadora…e satânica.

I AM THE PRETTY THING THAT LIVES IN THE HOUSE (2016)

I Am Pretty Thing That Lives in The House (literalmente “Eu Sou a Coisa Bonita Que Vive Nesta Casa”, mas traduzido por aqui como O Último Capítulo ou A Bela Criatura) pega a tradicional casa assombrada ou história de fantasma e transforma uma ideia simples num suspense perturbadoramente psicológico e existencialista.

Iris, uma escritora de terror aposentada, sofre de demência e mora em uma casa remota em Braintree, Massachusetts. A casa foi construída por um homem para sua noiva, mas o casal desapareceu no dia do casamento e deixou a casa sem mobília. O gerente da propriedade, Sr. Waxcap, contrata a enfermeira Lily Saylor para cuidar dela. Na primeira noite de Lily em casa, o telefone é arrancado de suas mãos por uma força invisível. Uma figura de branco andando para trás é vista. Uma mancha de mofo preto aparece na parede e cresce lentamente com o passar dos meses. A velha senhora se refere a Lily apenas como “Polly”, que ela descobre ser o nome da protagonista de seu romance mais popular, “A Dama nas Paredes”. Lily abre uma cópia do livro e descobre que o romance sugere que Iris conheceu Polly durante sua vida e está recontando sua história: em 1813, Polly, usando um vestido de noiva e uma venda preta, caminha pela casa vazia sob o olhar atento de seu marido.

Na cozinha, Lily brevemente alucina que seus braços estão inchados e cobertos de manchas pretas de mofo. Naquela noite, ela avista o reflexo da figura vestida de branco em pé na sala, mas quando ela se vira, não há ninguém lá. Ela descobre uma caixa de papelão mofada escondida em um armário. Dentro há rascunhos de “A Dama nas Paredes”. Ela passa a acreditar que o romance pode não ser fictício, mas sim retrata um assassinato real cometido na casa.

Esses dois primeiros filmes possuem um ritmo bem arrastado, desenvolvendo suas tramas calculadamente e sem pressa — o que pode incomodar a muitos. Particularmente, acho que esse recurso contribui ainda mais para a atmosfera carregada de pessimismo, claustrofobia, mistério e medo do desconhecido, presente nos dois filmes.

MARIA E JOÃO: O CONTO DAS BRUXAS (2020)

Embora Maria e João seja um trabalho mais comercial em relação aos anteriores, ainda mantém a marca do diretor.

É importante frisar que as adaptações dos Contos de Fadas, produzidas pela Disney, mutilaram cenas mais “pesadas” dos textos originais e construiram uma imagem coletiva de que essas histórias não passam de lições de moral bobas para crianças e meninas apaixonadas.

Não que os Contos de Fadas sejam genuínas narrativas de horror. Em questão de forma e linguagem, não. Mas, com suas metáforas e referências ocultas às superstições cristãs, sim, o terror está lá — sutil ou explicitamente. Pactos demoníacos, estupros, infanticídios, mutilações, incesto, canibalismo, etc. Osgood certamente sabe disso e o que ele faz aqui é exatamente resgatar e sugerir esses elementos.

Com uma fotografia entre belíssima e mórbida, o roteiro é carregado de atmosfera e o ritmo lento contribui para a construção desse clima que, ao mesclar os elementos principais do conto com o pano de fundo histórico dos reais horrores da Idade Média, cria um terror complexo e perturbador, ao desenvolver no relacionamento da bruxa e Maria um panorama cheio de camadas cinzas e atuais nos horrores explicitamente humanos.

Maria e João (título totalmente justificado pelo protagonismo da menina, tanto no conto quanto no filme) é, sem dúvida, uma das melhores adaptações de conto de fadas. E, apesar do final simples, o filme expande esse universo e deixa muitas pistas a serem exploradas pelo espectador em futuras reprises. Um verdadeiro exemplo de como respeitar o material base e inovar, ao mesmo tempo.

Há quem não goste do cinema de Oz Perkins, mas — ao menos, para mim — é um nome para se ficar de olho e seu trabalho conhecido, analisado, comentado e, quem sabe, apreciado.

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