Melhores do ano 2020

Por Equipe Escuro Medo

MELHOR POR ISMAEL CHAVES

Melhor filme: O cemitério das almas perdidas, de Rodrigo Aragão

“Corrompido pelo poder do livro negro de Cipriano, um jesuíta e seus seguidores iniciam um reinado de terror no Brasil colonial, até serem amaldiçoados a viver eternamente presos sob os túmulos de um cemitério.”

Rodrigo Aragão já é um nome bastante conhecido do público consumidor de Terror nacional. Seja por sua criatividade e uso de efeitos especiais práticos ou o desenvolvimento de histórias que refletem o folclore brasileiro e o momento atual do país, Aragão é um legítimo cineasta de guerrilha e é visível a evolução que ele apresenta a cada filme lançado. O Cemitério das Almas Perdidas já foi apontado como o 1° ÉPICO de Horror 100% brasileiro. A superprodução é o que chama a atenção logo de cara! Belíssima fotografia, figurinos de época, cenários góticos que fazem jus aos filmes de Mário Bava. Talvez os melhores efeitos especiais já utilizados no cinema nacional. Sem dúvida, o melhor cast da cinebiografia de Aragão, com Renato Chocair encarnando o melhor vilão do terror nacional, desde o icônico Zé do Caixão de Mojica. E, claro, uma história que parece saída diretamente das pulp fictions de Rubens Francisco Lucchetti! Uma obra-prima do Horror Nacional que vem coroar a já excelente filmografia de Rodrigo Aragão.

Melhor livro: O Vampiro, de John Polidori: edição comemorativa de 200 anos

2020 não foi um ano fácil para o mercado editorial. E, no meio desse cenário caótico, foram justamente as editoras independentes que se sobressaíram, com lançamentos de obras raríssimas ou há muito esgotadas em edições de luxo que verdadeiramente tratam os livros como objetos de imenso valor e, principalmente, respeitam o público leitor, muitas vezes responsável pelo próprio financiamento dessas obras. Como foi o caso dessa edição comemorativa dos 200 anos do conto O Vampiro, de John Polidori, lançado pela Editora Clepsidra, que hoje é um dos principais nomes da cena editorial independente, executando um trabalho louvável de resgate das grandes obras da literatura gótica, na maioria das vezes inéditas para o público brasileiro. Escrito com base em um fragmento inacabado de Lord Byron, o conto é a primeira narrativa em prosa em língua inglesa a apresentar um vampiro masculino. Criado como uma caricatura do próprio Byron, de aspecto donjuanesco e (literalmente) fatal, Lord Ruthven tornou-se o protótipo do morto-vivo aristocrático que serviu de base à disseminação dos vampiros pela arte mundial. A edição tem mais de 350 páginas de conteúdo extra, incluindo diversas versões originais, resenhas, cartas de John Polidori e referências cinematográficas.

MELHORES POR IRKA BARRIOS

Melhor filme: O que ficou para trás, Netflix

Uma coisa que sempre me lembro ao pensar o terror é que há, ou deve haver, uma hierarquia dos medos. Por exemplo, uma mulher que vive na Teerã dos anos 80 (cidade em que os prédios possuem abrigos subterrâneos para que os moradores se protejam dos bombardeios diários) não teria espaço dentro do cérebro para guardar outros temores, como espíritos, demônios ou fantasmas. Para esta mulher, a realidade se imporia de forma muito mais pavorosa que qualquer ameaça sobrenatural. O que ficou para trás é um filme que veio para sacudir esta minha certeza.  “Você realmente acha que quem passa pelo que eu passei tem medo de fantasmas?” é a pergunta marcante deste terror surpreendente. Um casal de refugiados sudaneses, após sobreviverem a um ataque de civis fortemente armados, embarcarem numa travessia perigosa, em que diversos outros morreram afogados, consegue aportar na Inglaterra. Em seguida, o casal também consegue permissão para viver no país, desde que num apartamento disponibilizado pelo governo. Sonho dourado para qualquer refugiado? Nem tanto, pois aos poucos o marido começa a enxergar, por trás das paredes com reboco descascado, a presença de espíritos (fantasmas? entidades?) que o aterrorizam e o atacam. 

Há uma reversão de perspectiva interessante aqui, já que na maioria dos filmes de terror quem enxerga o sobrenatural é a esposa. O marido sempre está ocupado demais para perceber o perigo. No caso de O que ficou para trás, o sensitivo é o marido. A esposa não enxerga ou não quer enxergar. Sendo assim, não aceita desistir do presente que receberam após tanta luta. O marido quer retornar ao seu país, ela cogita e separação. A pergunta que cito acima é dela. Como uma coisa tão insignificante (como um espírito/fantasma) pode por tudo a perder? Mas o filme avança e nos mostra que há algo mais significativo por trás dos medos que afligem aquele homem. Gostei especialmente porque o filme aterrorizante pode ser assistido com os olhos de um apreciador de terror sobrenatural, bem como por um apreciador de alegorias. 

Melhor livro: A floresta, de Daniel Gruber

Eu sei que estou praticando uma espécie de nepotismo, afinal Daniel Gruber é meu colega aqui no Escuro Medo. Mas eu queria citar um livro que abordasse um terror autêntico, ancestral, que fosse prata da casa (escrito por autora/autor nacional) e lançado em 2020. Bom, o fato é que A floresta preenche todos os requisitos. 

O livro mais recente de Gruber trata de um tema antigo e fascinante: a bruxaria. Só por isso já me encanta de saída, afinal sou mulher e (mesmo tendo conhecimentos superficiais sobre o universo das bruxas) me sinto parte desta Irmandade. É inevitável. Gruber tem muita facilidade em descrever cenários do passado (a história se passa no século XIX). Além disso, o autor conhece a realidade do interior do Rio Grande do Sul, e reconstitui com muita competência os hábitos e costumes do povo que aqui vivia. Os casamentos, não raro, eram forçados, somente para que a moça deixasse a miséria da casa dos pais e se oferecesse à humilhação da vida ao lado do marido. Além disso, o poder dos homens sobre os corpos das mulheres era costume disseminado. O cunhado de Anna, personagem central, só espera um descuido, um passeio pela mata, para que possa estuprar a esposa do irmão. 

Num meio tão hostil e rude é compreensível que Anna busque amparo numa amiga, mesmo que ela não seja um exemplo do comportamento esperado para as demais donzelas da redondeza. Anna se afeiçoa à Mathilde e é esta nova amizade que a faz penetrar na floresta. Um livro tocante e surpreendente.

MELHORES POR DANIEL GRUBER

Melhor filme: O chalé, de Veronika Franz e Severin Fial

Embora lançado originalmente em 2019, o filme chegou no Brasil este ano. Dirigido pela dupla Veronika Franz e Severin Fial, os mesmos do excelente Boa noite, mamãe (2014), a produção era aguardada como uma das maiores processas do ano. Com diversas falhas de roteiro, o longa acabou não suprindo todas as expectativas, mas ainda assim ficou acima da maioria das outras produções do gênero. Com uma atmosfera sombria e sufocante e uma história com forte teor psicológico, o filme acerta na tensão crescente entre uma madrasta e seus dois enteados presos numa cabana no meio da neve. Para piorar o conflito entre eles, temos o passado para lá de macabro da protagonista (a única sobrevivente de uma seita que cometeu suicídio coletivo) e da mãe das crianças (que também se suicida), gerando uma coincidência inquietante que leva os personagens a um clima de paranoia mútuo. O final, embora previsível, é graficamente impactante. O chalé é um forte representante na nova safra de filmes de horror.

Melhor livro: Livros de Sangue – Volume 1, de Clive Barker

O melhor livro de horror de 2020 chegou aos quarenta e cinco do segundo tempo. Trata-se de uma nova edição dos Livros de Sangue do americano Clive Barker, lançado originalmente em 1984, que estava fora de catálogo há décadas no Brasil. O primeiro volume da série foi lançado com excelente tradução de Paulo Raviere e traz seis contos longos que levam ao leitor o supra sumo da mente sombria e doentia de Barker: mortos narcisistas, demônios a serviço da dor e do sofrimento, seres ancestrais, assassinos sádicos e cultos bizarros. Com linguagem afiada e mão firme, Barker consegue criar em poucas páginas personagens com quem nos importamos e que rapidamente se encontram no meio de um pesadelo infernal. Um dos ícones da literatura de horror contemporânea, o autor e diretor de Hellraiser mostra que entende de sanguinolência e bizarrice, e a lindíssima edição da DarkSide Books entrega aos leitores brasileiros uma das literaturas de horror de maior qualidade. Meus contos preferidos são “O trem de carnes da meia-noite”, que nos coloca num trem vazio com um serial killer e “O blues do sangue de porco”, que transforma um inocente reformatório de garotos em um verdadeiro círculo do inferno.

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