O terror de quando a fé preenche o vazio

Por Daniel Gruber

Saint Maud foi um dos filmes mais aguardados pelos fãs desta nova safra do cinema de horror. Produzido pelo aclamado estúdio A24, responsável por produções como A Bruxa e Midsommar, o longa escrito e dirigido por Rose Glass teria sido comparado ao clássico O Exorcista. Embora a produção seja de 2019, Saint Maud sofreu inúmeros adiamentos devido à pademia mundial do COVID-19 e acabou lançado nos cinemas americanos apenas em janeiro deste ano, devendo chegar à plataforma de streaming Epix em fevereiro.

Seguindo a linha imersiva que tem caracterizado as produções de horror independentes (algumas vezes chamadas de “pós-horror”), Saint Maud nos leva para dentro da cabeça de Maud, uma jovem enfermeira que acaba de passar por um trauma na sua profissão e se converte ao catolicismo de forma bastante fervorosa. Em sua nova vida, Maud deixa o hospital onde trabalhava e se torna cuidadora particular na casa de Amanda Köhl, uma renomada coreógrafa que sofre de uma doença em estado terminal.

A oposição entre a devota Maud e a libertina Amanda vai gerar uma relação de intensa devoção, culpa e desejo, aflorando em Maud seus piores demônios e suas lembranças do passado. Atormentada (ou “abençoada”, em seu próprio ponto de vista) por visões divinas, Maud acredita que Deus é capaz de falar com ela através de suas preces, e que sua missão é salvar a alma de Amanda antes da morte e, com isso, se santificar. Entretanto, uma forte tensão sexual surgirá entre as duas, tornando a missão de Maud confusa e desesperadora.

O filme permite a dupla interpretação do que é mostrado: as experiências de fé de Maud tanto podem ser verdadeiras, como podem ser fruto de delírios causados pelo estresse pós-traumático. Até o final do filme a dupla interpretação é possível, mas um último frame de apenas um segundo antes dos créditos oferece uma possível chave para esse dilema, um dos acertos mais interessantes e perturbadores do longa.

Maud é sem dúvida uma personagem bastante rica em sua solidão e seu vazio interior, interpretada de forma impecável pela atriz Morfydd Clark. A química entre Clark e Jennifer Ehle, que interpreta Amanda, é um dos pontos altos. A devoção religiosa é abordada de forma sensível, sem gratuidades, mostrando como pode ocupar o lugar de uma dor ou de um vazio, mas também demonstrando como pode se aproximar da loucura, onde o filme ganha suas cenas mais intensas e angustiantes.

A comparação com O Exorcista é sem dúvida um exagero. Os temas trabalhados são completamente outros e a abordagem também. Saint Maud não aterroriza pela presença de um sobrenatural explícito, contudo deixa o espectador bastante apreensivo em diversos momentos, preparando-o para o final. Grande parte do filme é composto por uma densa sensação de melancolia, o que é extremamente positivo em se tratando de um filme de horror atmosférico e existencial.

A fotografia é de encher os olhos, com um magnífico jogo de luz e sombras, representando muito bem a oposição entre o antigo e o moderno (a cena de autoflagelação com pipoca de microondas é genial nesse sentido), entre a fé e a desesperança, e marcando bem a ruína mental (e moral?) das personagens.

O filme não vai agradar fãs de horror mainstream, que esperam sustos ou cenas chocantes o tempo todo. Saint Maud tem um andamento lento e denso, mas entrega o que promete com louvor. A história não traz grandes inovações para o gênero, e pode até soar um pouco previsível, mas a direção, a fotografia, a composição de arte e as atuações são memoráveis. Certamente é um filme que garante o lugar do gênero do horror na história da arte. E, considerando que é uma produção de estreia, Rose Glass é uma cineasta para acompanharmos bem de perto nos próximos anos.

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