O terror nas sombras de Goya

Por Ismael Chaves

Em 1792, durante uma viagem a Andaluzia, Goya contraiu uma doença grave e desconhecida, deixando-o confinado a uma cama durante meses. Sofrendo alucinações e fortes dores de cabeça, Goya perdeu parcialmente sua visão e tornou-se surdo definitivamente. Mesmo após a lenta recuperação, que permitiu-lhe voltar a andar porém com grandes dificuldades, a doença afetou completamente sua autoestima e teve um impacto muito forte em sua obra a partir dali. Suas pinturas perderam a alegria e tornaram-se um tanto grotescas, as cores deram lugar a tons mais sombrios, e o medo e a fraqueza passaram a ser expostos em cada rosto retratado. Logo, temas como a loucura, a violência, bruxaria e demônios passaram a preencher suas telas.

Abismo em Chiaroscuro: Ficções e Visões Goyescas, lançado pela Raphus Press, é uma homenagem ao grande pintor e gravurista espanhol Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828), com uma seleção de ficção e poesia de horror contemporâneas.

A variedade dos autores presentes nesta coletânea garante um amplo leque possível de metodologias, de abordagens, de visões, de horrores e êxtases. Entre os selecionados, estão alguns dos mais extraordinários autores do horror fantástico contemporâneo, que reconstroem visões estéticas ao mesmo tempo em que reinterpretam os temas de Goya, como os conflitos entre razão e irracionalidade. Além disso, Abismo em Chiaroscuro faz uma homenagem às plaquettes, livretos breves mas de acabamento firme, para rápida distribuição e difusão, com acabamento artesanal, feito com papéis especiais.

O livro abre com um interessantíssimo ensaio de Luiz Nazario sobre as muitas influências de “Goya no cinema”. Em seguida, temos Colin Insole com a prosa atmosférica “Memórias das Pessoas Ossificadas”, sobre um casal perdido em meio a uma trilha íngreme por um matagal , cercado de ruínas, que os leva até os portões enferrujados de uma estranha instalação. O conto possui uma ótima ambientação e conduz o leitor a um desfecho fantástico, onde tudo que aconteceu pode ou não ser real, natural ou sobrenatural.

Em “Os Dentes de Leão na Primavera”, Karim Ghahwagi apresenta ao leitor um breve relato dramático que, logo, transforma-se em uma das ficções especulativas mais melancólicas e avassaladoras que eu já li desde 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Arthur C. Clarke, transmitindo-me o mesmo sentimento de contemplação e vazio.

“Soplones!” é o conto de Alcebiades Diniz, organizador da coletânea e responsável pela editora. Em uma situação de possível metalinguagem, o personagem principal, vendedor de obras raras, vai até o casarão de um velho colecionador a fim de barganhar uma antiga edição de Dicionário Infernal de J. Collin De Plancy, mas acaba se deparando com uma obra muito mais antiga, desconhecida e profana. Talvez só não mais abominável que o seu estranho anfitrião. Com um clima soturno e claustrofóbico, Alcebiades nos lembra que certos tipos de conhecimento, talvez, devam permanecer esquecidos.

“Ditirambos na Cantábria Antiga” é a contribuição do escritor Thassio Rodriguez Capranera nesta coletânea. Além de escritor, Capranera é pesquisador, tradutor e editor, tendo colaborações importantes em editoras como Pyro Books, Revista Diário Macabro e a própria Raphus Press. E eu preciso dizer o quanto fiquei impactado por sua escrita. Sua prosa contém um lirismo refinado, com cada palavra e frase sendo cuidadosamente elaborada para transmitir o estranhamento na narrativa. Algo que transita entre a sutileza e o insólito de mestres como Arthur Machen, M.R James e Coelho Neto. O conto apresenta o encontro de dois jovens artistas com uma personagem de pele azul que desencadeará uma série de eventos bizarros com consequências inimagináveis. É a sensação do horror puro, causado pelo choque e a impotência diante do desconhecido. Uma narrativa poderosa que é, sem dúvidas, um dos destaques do livro.

“O Ritual”, de Camilo Prado, vem logo a seguir para comprovar a força dos autores nacionais nesta coleção de histórias decadentes e terroríficas. Como o título já aponta, a história gira em torno de uma manifestação religiosa que, aqui, ganha ares de Folk Horror em meio a fogueiras e florestas sombrias. Como no conto anterior, esta narrativa utiliza muito o corpo e o sexo para manifestar ações e sensações que causarão o frenesi no leitor. Falar mais incorre no risco de spoiler, já que o conto é curto e você termina-o com vontade de ler mais materiais do autor.

Voltando aos autores estrangeiros, Jonathan Wood apresenta em “O Rosto que não Está” a clássica história de casa mal-assombrada – será isso mesmo? Dois amantes ficam responsáveis de tomar conta da casa de um pintor, durante sua ausência, com a seguinte ordem de, em hipótese alguma, subirem ao terceiro andar, onde ficam expostos alguns quadros do anfitrião. A narrativa possui uma atmosfera crescente de curiosidade, tensão e, por fim, o desfecho trágico com influências de “O retrato oval”, de Edgar Allan Poe.

Finalizando a seleção de prosas, Fábio Waki, em “Lições à Luz de Velas”, narra uma história dramática, que instiga-nos a refletir sobre os efeitos aterradores das guerras em pessoas das mais diferentes classes e ideologias. A Arte parece ser, seja na ficção ou na vida real, o único canal capaz de enxergarmos nossas contradições para além de lados opostos em campos metafísicos de combate de nossas próprias almas.

A coletânea ainda conta com três poemas, com destaque para o herético “Eu, Goya” de Wade German.

Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumam fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso seus livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única.

Já no quesito conteúdo, o foco é a ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – Neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores advém das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca…).

Apostando em novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa, a Raphus lançou a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida dos lançamentos das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol, a narrativa de uma outra Europa por Mark Valentine e John Howard em Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater e a peça trágica com elementos cósmicos Crias de Hipnos de Wade German.

Abismo em Chiaroscuro é uma obra belíssima, que deve figurar nas estantes de qualquer amante das letras ou admiradores do pintor, seja para os aficionados pelo fantástico e terrorífico. No entanto, não é uma leitura recomendada para aqueles acostumados a narrativas mais comerciais que emulam filmes hollywoodianos do gênero. Aqui encontrarão o terror em seu mais puro estado caótico e sublime, grotesco e profano, bem como a obra de Goya.

4 comentários sobre “O terror nas sombras de Goya

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