O terror de desenterrar demônios

Por Irka Barrios e Ismael Chaves

Cidade invisível estreou agorinha, no início do fevereiro, numa das plataformas mais populares de streaming: a Netflix. Uma excelente notícia para os amantes de filmes e séries que abordam temas fatásticos ou sobrenaturais. Primeiro porque é brasileira, e conhecemos as dificuldades que os trabalhadores do setor da cultura estão sofrendo neste período sombrio de pandemia no Brasil. Segundo porque traz uma proposta inovadora: explorar os mitos de nossa cultura a partir do enfoque adulto, mesclando mistério, drama, investigação e questões ambientais. E terceiro porque a aposta deu super certo e Cidade invisível figura na lista de audiovisuais mais assistidos da plataforma. Aliás, está no TOP 10 de 40 países!

Em entrevista recente, o criador da série, Carlos Saldanha (responsável pela animação Rio, de 2011, e O touro Ferdinando, de 2017), contou que um dos objetivos era manter o público que o acompanha desde criança e que hoje atingiu a idade adulta. Também afirmou que a ideia era resgatar figuras ilustres de nosso folclore, removê-los de seus habitats naturais e trazê-los para viver e interagir com o mundo atual e urbano. Como seria um Curupira que vivesse na selva de pedra? E o Saci sem a carapuça? Conseguiria aprontar suas pequenas travessuras? E a Iara? Vivendo em terra firme, manteria a habilidade de encantar e hipnotizar os homens?

A equipe Escuro Medo comemora a iniciativa de apresentar as lendas de nosso folclore para 190 países como algo bem-vindo. E, mesmo com as críticas que começam a despontar, acusando o autor de representar da forma errada (ou exagerada) determinado personagem, de desrespeitar lendas de povos originários da América ou da temível “apropriação cultural”, a série conquistou espectadores de vários segmentos. As críticas, protestos e cancelamentos não ocultaram o trabalho realizado com notável qualidade. 

Cidade Invisível é uma série divertidíssima. Com um roteiro que prende o espectador do início ao fim e ótimos efeitos especiais, é mais um acerto da plataforma , provando mais uma vez que nossa produção audiovisual é para gringo nenhum botar defeito.

O protagonista, Eric, vai bem na pele de um policial descrente que não demora a compreender que há mais mistérios entre o céu e a terra do que ele sonha. A atmosfera de mistério permanece ao longo dos sete capítulos da série, outro acerto que aguça a curiosidade do espectador que, em certo ponto, desconfia de tudo e de todos.

Para além dos desentendimentos e polêmicas exaltadas, há dois pontos que também merecem nota: os personagens não são simples representações dos mitos, eles possuem seus dramas e questões pessoais. Por motivos óbvios, o conflito de Eric, o personagem central, é bem mais explorado. Mas os demais personagens, que representam os seres folclóricos, também possuem seus momentos de protagonismo. No início de cada episódio há uma cena que demonstra o sofrimento de cada um. O outro ponto que, mesmo não proporcionando uma sensação de justiça terrena, promove certo conforto, é justamente a suspensão da descrença que nos faz embarcar no terreno sobrenatural. É a tão brasileira fé de que há uma força maior, invisível, mas poderosa, que cuida dos rios, das florestas e dos povos ancestrais.

Fábula adulta

Aqui vale um adendo: os personagens folclóricos são, sim, originários da cultura popular e, em geral, foram criados e disseminados para educar crianças através do temor, uma relação semelhante ao dos contos de fada no continente europeu. As mais levadas, as que não dormiam, comiam pouco e mal, mexiam onde não deviam, sumiam de casa sem dar satisfação (algo mais raro hoje) eram ameaçadas pelas figuras de monstros horríveis que as castigariam assim que as flagrassem em delito. O costume das lendas repassadas de geração em geração não é exclusivo do Brasil, das Américas, ou da Europa, mas de um tempo passado, não tão longínquo. As fábulas mais antigas provocavam, acima de tudo, muito medo. Somente a partir do século XX elas se tornaram mais adocicadas. As “morais da história” não são aprendizados tão duros, os castigos, quando ocorrem, são mais leves.   

Com a natural proximidade dos mitos do folclore da imaginação infantil, houve (de nossa parte) certo receio de que a série se voltasse mais para a fantasia. Na maioria das produções similares, as entidades são representadas com traços infantilizados e suas maldades não passam de travessuras. Mas Cidade invisível inova e entrega outra visão, a que Saldanha idealizou: adulta e atual, uma proposta ousada que funcionou muito bem. A mais importante pauta das entidades continua ser a preservação ambiental, porém eles não estão para brincadeira. Usam seus poderes para combater os seres humanos, porque os consideram inimigos da natureza. Uma revolta bastante compreensível. 

É também compreensível que cada cultura tenha suas próprias fábulas, e que muitas delas sejam originárias de outros povos, mais ancestrais. A tradição oral é muito rica e modifica as lendas numa interessante miscigenação entre culturas e crenças. A Cuca, por exemplo, adquiriu diversas formas conforme o autor que a descreveu. Januária Cristina Alves em seu livro Abecedário de personagens do folclore brasileiro a associou à mariposa, enquanto Monteiro Lobato, ainda que sem querer, gravou na imaginação das crianças a imagem de um jacaré. Segundo o folclore, a Cuca e o Tutu são papões (ou bichos-papões) sem forma definida. O nome Cuca, entretanto, deriva da Coca, personagem importada de Portugal e, portanto, do folclore luso.

Na pele de Alessandra Negrini, a Cuca poderia roubar a cena já que ela é uma espécie de mãe e protetora das demais entidades. Mas isso não acontece, embora ela esteja impecável no papel, com figurinos, cenários, falas e poderes fantásticos.

Os outros personagens, como a Iara, o Tutu, o Saci, o Boto e o Curupira não deixaram a desejar nas performances. Naturalmente, muitas pessoas estranharam certas mudanças nos principais entes folclóricos, seja pela Cuca não ser um jacaré e virar borboleta, a Iara ser uma atriz negra e não indígena, ou o Curupira viver como um mendigo paraplégico vagando pela cidade. Mas, também uma lenda “importada” é a Iara, diretamente trazida da Europa pelos navegadores que associavam estranhos casos de naufrágio às lendas das sereias. Como se pode notar, a ideia de apropriação cultural é muito mais profunda e complexa do que as discussões de internet.

É preciso, antes de tudo, entender que as lendas folclóricas não possuem uma origem pura, são frutos da miscigenação cultural do país e, na série, são apresentadas sob o ponto de vista da ficção imaginativa, não como apanhados históricos. Além disso, não somos tão tolerantes com o audiovisual brasileiro quanto somos com o americano, que frequentemente apresenta histórias de outras culturas sem ser acusado de apropriação.

É digno de nota como a produção da Netflix conseguiu a façanha de despertar o interesse geral do público brasileiro pelo nosso folclore, além de conquistar o mundo afora. Para o bem ou para o mal, milhares de pessoas estão se interessando, pesquisando e debatendo sobre Saci, Cuca e companhia. E isso por si só torna Cidade Invisível um acontecimento importantíssimo, que só tende a abrir ainda mais portas para o gênero fantástico nacional.

2 comentários sobre “O terror de desenterrar demônios

  1. Muito boa sua análise da série. Sou fã de lendas e mitos. Eles possuem uma poética e psicologia extraordinárias. Não é o por caso que tantos intelectuais em diferentes áreas do saber se renderam a eles.
    Porém, o que mais me preocupa na atualidade é uma tendência para a domesticação do perverso. Mostram o lobo como um cordeiro levado.
    Qto à série, eu amei! A lendas se tornam arquétipos que se apoderam de humanos após uma tragédia em suas vidas. Duas vidas com suas próprias histórias ao mesmo tempo.
    Torço para se manter o mesmo ritmo e beleza da primeira temporada, o que não costuma ser a regra em muitas séries.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito boa sua análise da série. Sou fã de lendas e mitos. Eles possuem uma poética e psicologia extraordinárias. Não é o por caso que tantos intelectuais em diferentes áreas do saber se renderam a eles.
    Porém, o que mais me preocupa na atualidade é uma tendência para a domesticação do perverso. Mostram o lobo como um cordeiro levado.
    Qto à série, eu amei! A lendas se tornam arquétipos que se apoderam de humanos após uma tragédia em suas vidas. Duas vidas ao mesmo tempo. Achei original!
    Torço para se manter o mesmo ritmo e beleza da primeira temporada, o que não costuma ser a regra em muitas séries.

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