O terror de Hannibal Lecter

Por Irka Barrios

Meu primeiro encontro com Hannibal foi em 1991, no cinema, quando O silêncio dos inocentes estreou no Brasil. Não me lembro se havia censura por idade, mas, se havia, bilheteiro e porteiro fizeram vista grossa. Entramos fazendo o estardalhaço normal que adolescentes fazem quando estão animadíssimas. A imagem do cartaz de propaganda e os jornais da época anunciavam um terrorzão de gelar os ossos. Mastigando as pipocas que passavam pelas mãos ansiosas das seis garotas muito bem acomodadas, erguemos os olhos para a tela. Não demorou para o filme nos absorver por completo. Nossas conversas laterais e gritinhos emudeceram frente à impactante cena do primeiro contato entre Clarice e o Dr. Lecter. 

Em pé, no centro de uma cela revestida com paredes rústicas, Hannibal a examinava como se esperasse pela visita. Vestia calça e camiseta brancas, figurino que remetia aos pacientes dos sanatórios, tão comuns até a metade do século XX. A iluminação de cima, concentrada em sua figura imponente, também demonstrava que o palco era todo dele: o homem isolado do mundo por uma barreira de tijolos e vidro blindado. Nada de janela, nem grande, nem pequena. De sua cela, Hannibal só enxergava o vizinho da cela da frente. Ou quem se propunha a conversar com ele. À Clarice foi recomendado que não se aproximasse do vidro, nem aceitasse qualquer coisa que o Dr. Lecter pudesse oferecer pela gaveta de passagem de documentos. Tanta precaução tornava óbvio que o prisioneiro era alguém da mais elevada periculosidade. Eu não compreendia porque um homem tão bem vigiado podia ser tão temido. Eu também não sabia que aquele homem, personificado pela atuação de Anthony Hopkins, se tornaria um dos meus vilões favoritos da ficção.   

Em maio, mais precisamente no dia 17, fará 30 anos que O silêncio dos inocentes estreou no Brasil. Há tanta coisa a se observar e discutir sobre o filme que o fio de raciocínio pode ser interminável. Baseado no livro do autor Thomas Harris, a obra não é a primeira aparição cinematográfica do Dr. Hannibal Lecter. Houve uma adaptação anterior, mais discreta, baseada no livro “Dragão vermelho” (1981) e lançada em 1986 com o título de “Caçador de assassinos”. No total são quatro livros em que Harris aborda a história do psiquiatra canibal.

Mas minha intenção, hoje, é render homenagens ao meu primeiro contato, quando ele era uma fera enjaulada e manipulava, ou tentava manipular, num jogo psicológico interessante e perigoso, a agente especial Clarice Starling. Por mais inesperado que fosse, criminoso e investigadora firmaram uma relação muito próxima da amizade. Talvez porque seus códigos de conduta por vezes se aproximam. O Dr. Lecter enxerga e admira a ingenuidade típica de uma garota do interior que Clarice mantém mesmo na vida adulta. Provavelmente essa característica desperta nele um instinto protetor. É como se ele fosse responsável pela manutenção dos princípios que regem a personalidade de Clarice. Ele a respeita, embora aponte o dedo para o que considera suas fragilidades. E a mais marcante de todas é algo que, tanto na época em que o filme foi lançado, como ainda hoje, é fonte de preconceito: ser mulher.

Desnudar é a palavra adequada para o que Clarice vive em sua primeira missão como agente especial do FBI. A personagem é uma mulher bonita, a melhor aluna da turma, e tem grande dificuldade de se impor exatamente porque é uma mulher bonita e inteligente que vive um momento de evidência num ambiente muito masculino. Tanto no filme quanto no livro os episódios de machismo e misoginia estão escancarados. Na primeira visita de Clarice à prisão, após a cena intimidadora que narra sua primeira conversa com Hannibal, ela sofre um ataque de outro prisioneiro. O homem se aproxima sorrateiramente das grades e joga nela um líquido estranho. Ela segue em frente, tentando não demonstrar emoção, e logo percebe que o líquido é sêmen. É o tipo de agressão que grita a todos os ventos que ali não é lugar para ela. De seus colegas de trabalho, tanto os superiores quanto os subalternos, Clarice não recebe tratamento muito diferente. Diversos comentários, cochichados ou falados em voz alta, corroboram com a atitude misógina do prisioneiro.

O diretor Jonathan Demme foi muito sagaz ao demonstrar o desconforto que experimenta uma mulher que transita num meio essencialmente masculino. Para tal efeito, ele filmou os atores que contracenaram com Clarice fixando o olhar direto na câmera. O desconforto que o espectador experimenta se assemelha ao de uma mulher assediada. Hannibal, Jack Crawford e até mesmo o Dr. Chilton encaram Clarice com a mesma insistência e, embora ela sustente o olhar, seus momentos de embaraço são perceptíveis. E as situações desconfortáveis não param nos olhares intimidadores. Há insinuações de ligação íntima entre Clarice e seu chefe, há comentários sobre o corpo dela e há maneiras polidas de pedir que ela se retire em momentos que serão examinadas fotografias com evidências de crimes sexuais. 

Com tanta tensão, o autocontrole de Clarice é posto à prova o tempo inteiro. A ligação entre Hannibal e ela gera certa expectativa no leitor. Está claro que não há espaço para uma relação íntima, mas a tensão sexual é algo presente em todas as cenas. Divertindo-se enquanto brinca com sua presa, Hannibal, aos poucos, convence que não busca recompensa a partir da energia sexual. Sua motivação é outra, um desejo também primitivo que se realiza quando ele consegue eliminar seus desafetos. Devorando-os.

Os diferentes usos do verbo devorar, inclusive, estão bem aplicados na intenção da obra: o assassino devora com os olhos, com a mente, com o sexo e com a boca. Mas ele busca a aniquilação das pessoas que despreza, não de quem ele nutre afeto. Clarice não corre risco. Afinal, o mundo é mais bonito com a presença dela. Qui pro quo

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