O terror da insignificância

Por Daniel Gruber*

H. P. Lovecraft, um dos mestres modernos da literatura de horror, acreditava que “a emoção mais antiga e forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e poderoso é o medo do desconhecido”. Acessar esse medo primitivo, ancestral e quase inexplicável, porém, é um projeto intelectual do qual poucos escritores são capazes de realizar com profundidade. Aquilo que Lovecraft chama de “apelo do macabro espectral” exige dos leitores hoje em dia um grau de imaginação e capacidade de se distanciar da vida cotidiana por onde só um guia experiente é capaz de conduzir.

De fato, a vida moderna e urbana frequentemente nos cerca de telas coloridas e espelhos reluzentes que mantêm o ser humano sedado pela sua própria imagem, absorto em mil formas de venerar a si mesmo como o deus de sua seita solitária. No plano universal, como já reforçaram dezenas de físicos renomados, somos apenas poeira cósmica. Para o tempo e o espaço, a humanidade é menos que um grão de areia. Este mundo de espelhos e telas, likes e consumos vazios, este simulacro de vida que arrastamos pelos dias, na maior parte do tempo serve para nos manter longe do pavor que é a vida: a morte, a dor, a loucura, a insignificância.

Escritores de horror, por outro lado, trabalham de forma louvável — muitas vezes incompreendidos — para nos fazer lembrar de quem realmente somos: frágeis animais se escondendo de seu próprio desespero.

Dessa sensação de pequenez e impotência perante o universo e à natureza, e da frivolidade de nossa compreensão diante do infinito desconhecido, das paisagens sublimes e selvagens da qual não acessamos, das dimensões tétricas da consciência, daí nasce o horror cósmico de que só a arte pode expressar.

Em sua estreia na literatura, Lucas Lopes segue os passos daqueles que exploraram com maestria esse sentimento. Nas seis histórias que compõem Os Filhos da Terra e outros contos, o horror decorre dessa angustiante percepção, a de que nós, seres humanos, somos ridículos peões no grande jogo do universo. E de que estamos sujeitos a poderosas forças superiores que ora ressurgem das entranhas da terra e ora cruzam os planos de existência apenas para brincar com a nossa imagem (como no conto “Eu mesmo, a morte”, que retoma o clássico tema do duplo), para destruírem nossa sanidade (como em “Episódio na rua do Centro”) ou para de nós se alimentarem (como em “A luz”, “Câncer” e no conto que dá título ao livro, “Os Filhos da Terra”).

Em vez de serem forças maléficas, como na literatura gótica e demoníaca, essas forças são simplesmente indiferentes à humanidade, o que talvez torne sua presença ainda mais perturbadora. Afinal, se há algo que o ser humano teme mais que a morte é a insignificância. O horror decorrente da percepção de um mundo sem significado, sem propósito e sem qualquer possibilidade de interferência ou escolha é certamente insuportável para qualquer intelecto.

Com uma visão sóbria e linguagem madura, Lucas Lopes constrói um livro de estreia marcante e coeso, traçando um percurso firme através dos temas tão caros aos fãs do horror cósmico, e nos joga no colo narrativas poderosas que, de forma fluída, conduzem para um clímax repleto de escuridão, insanidade e pavor.

* Este texto foi publicado originalmente como prefácio ao livro de Lucas Lopes.

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