#clássicos: O terror herético de O Monge

Por Ismael Chaves

Quando foi lançado em 1796, os críticos mais conservadores ficaram chocados com a publicação de um romance contendo blasfêmias, sequestro, assassinatos, incesto, cadáveres em decomposição e uma adoração ao diabo sem precedentes.

Se você acha que um romance do século XVIII não é capaz de provocar assombro nos dias de hoje, você está terrivelmente enganado! Escandalosamente pesado para a época, O Monge, de Matthew Gregory Lewis, é capaz de despertar verdadeiro horror (ou fascínio, vai saber) naqueles que se aventurarem em suas páginas malditas! Trata-se de um verdadeiro clássico da Literatura Gótica, cujos elementos inovadores podem ser encarados como o início do gênero do horror.

Segundo a sinopse da Editora Pedra Azul, “O monge Ambrósio é um exemplo de virtude, figura admirada pela sua conduta irrepreensível e pelo seu conhecimento das escrituras. Isolado da sociedade e dos seus pecados, deposita uma excessiva confiança na sua virtude e acredita que as paixões humanas não têm qualquer poder sobre ele. Porém, é o diabo quem dá a última palavra. Quando seu estimado noviço revela ser, na verdade, uma mulher, ele abandona seus votos e conhece a luxúria, o orgulho e a crueldade. Sua ruína é inevitável.”

Se essa premissa lembra, a princípio, outros romances subversivos de época, como Os Crimes do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, não se deixe enganar: essa descrição é só a ponta do iceberg na obra de Lewis, que divide a história em duas subtramas, igualmente chocantes, cujos caminhos permeados de segredos, mortes, assombrações e rituais macabros irão, inevitavelmente, se cruzar de modo trágico.

Além do arco principal do monge Ambrósio, temos a empolgante narrativa, a partir do 2° capítulo, de D. Ramon, um nobre que se verá envolvido nos mais terríveis e inesperados sortilégios. A partir daqui, o autor constrói um suspense que desencadeará alguns dos melhores momentos de atmosfera e terror que o leitor do gênero terá contato em sua vida. Seja pela aventura noturna na cabana no meio do bosque ou a sinistra aparição em um castelo medieval, que resulta em uma antológica cena ritualística. Ainda assim, o leitor encontrará alguns capítulos bem característicos do romance de época.

Como Horace Walpole, fundador da literatura gótica com o romance O Castelo de Otranto (1764), Matthew Gregory Lewis também escreveu e traduziu diversas peças. O teatro shakespeariano tem uma influência nítida na obra precursora de Walpole e nunca deixou de apresentar nuances no gótico, principalmente em narrativas curtas como os bluebooks, penny dreadfuls e anuários, que fizeram muito sucesso entre o público vitoriano. O que Lewis fez foi subverter as características do gênero, pois uniu o Romantismo inglês (que tinha grande influência do Teatro) com o Schaurroman alemão.

Na Alemanha da época, não havia uma tradição gótica (ao menos, os alemães não utilizavam esse termo, já que a palavra tinha outro significado cultural para eles). Os escritores da época eram muito influenciados pelo movimento Sturm and Drung, que rompia com o classicismo ao evocar narrativas permeadas de violência, sexo, cenas macabras e, às vezes, o sobrenatural.

Lewis foi enviado muito jovem, por seu pai, para a Alemanha e acabou fortemente influenciado pela Literatura de Goethe e Schiller. Aliás, Lewis foi o grande fomentador da Literatura Alemã na Inglaterra, ao traduzir e editar várias obras para o inglês. Essa influência pode ser analisada através de elementos presentes nos romances O Aparicionista (1787-1789) de Frederich Schiller e O Necromante (1792) de Lorenz Flammenberg (ambos foram publicados, no Brasil, pela Editora Sebo Clepsidra) e o conto O Rapto de Johann Karl August Musäus (presente na antologia Contos Clássicos de Fantasmas, em co-edição da Editora Ex Machina e Sebo Clepsidra).

Embora Edgar Allan Poe seja conhecido como aquele que elevou o terror como um subgênero do gótico, foi Lewis quem alicercou o caminho ao mesclar o Schaurroman, realizando algo totalmente diferente e ousado do que havia sido feito até então. E, na minha opinião, nenhuma outra obra posterior jamais se igualou em ousadia com O Monge.

Seu brilhantismo influenciou toda a Literatura Gótica e de Terror, seja em romances como Os Elixires do Diabo (1815, E.T.A Hoffmann) e A Mortalha de Alzira (1895, Aluisio Azevedo) ou mesmo a vasta produção de contos publicados em bluebooks, chapbooks, penny dreadfuls e anuários, extremamente populares na Inglaterra Vitoriana, como O Convento de Santa Clara; ou O Espectro da Freira Assassinada (1811, Sarah Wilkinson), A Freira Sangrenta do Mosteiro de Sta Catarina (1801, T.I Horsley Curtis), A Garrafa de S. Antão; ou O Vinho do Diabo (1830, Anônimo), Albert de Werdendorf; ou O Abraço da Morte (1812, Sarah Wilkinson) e O Errante (1830, Anônimo) – todos publicados pelo Sebo Clepsidra, através do clube Raridades do Conto Gótico.

Aliás, é curioso e lamentável que, embora tenha feito um estrondoso sucesso na época de sua publicação (e garantido a Lewis, segundo as instituições conservadoras, um lugar quentinho no inferno) e seja um clássico reverenciado e muito estudado, O Monge não tenha alcançado o mesmo apelo popular de Frankenstein e Drácula nos dias hoje. Embora sejam verdadeiros clássicos do gênero, as obras de Mary Shelley e Bram Stoker são muito mais “palatáveis”, digamos, ao grande público, se comparados com a epopéia trágica e o terror herético do monge Ambrósio.

Possivelmente, a ousadia da obra – assim como suas subtramas e várias histórias dentro de outras histórias – e seu final surpreendente e perturbadoramente polêmico, seja um fator determinante, principalmente para Hollywood, que abomina histórias complexas e difíceis de adaptar. (Um conselho: se você se deparar com a “adaptação” de 2010, estrelada por Vincent Cassell, fuja como o Diabo corre da cruz!)

Cabe a nós, leitores dessa obra magnífica, levarmos as boas novas de Matthew “O Monge” Lewis a novos discípulos, sedentos por uma história ousada, surpreendente e inigualável na trajetória do Gótico e do Horror.

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