Crimes Impossíveis: mistério e morte entre quatro paredes

Por Ismael Chaves

O que há além das estrelas, o que esconde a escuridão da noite sem lua, o que há atrás da porta trancada? Há o anseio de descobrir as respostas para tudo aquilo que provoca uma quebra em sua existência, aparentemente, organizada.

Somos atraídos por narrativas de mistério que desafiam a lógica estejam elas na natureza, nas páginas dos jornais, na narrativa de um livro, nos prendendo página após página, ansiosos pelo desfecho do enigma.

Em uma recente entrevista ao site Literatura Policial , o grande escritor, tradutor, compositor e pesquisador Braulio Tavares definiu os crimes impossíveis como:

“(…) contos de mistério e de engenhosidade, que estabelecem um desafio entre o autor e o leitor. O autor propõe uma situação que parece sobrenatural (parece haver nela o envolvimento de espíritos, uma desmaterialização), mas depois vê-se que ela pode ser explicada de maneira concreta, material, realista.”

Braulio desenvolve ainda mais essa definição no prefácio de Crimes Impossíveis – Crimes de Quarto-Fechado, novo lançamento da Editora Bandeirola, que inaugura a nova série Biblioteca Pessoal de Braulio Tavares.

“O crime impossível talvez seja o tipo mais rebuscado de puzzle ou quebra-cabeças dedutivo na literatura policial. (…) mais importante do que o whodunit (quem matou) ou o whydunit (por que matou) é o howdunit (como matou). A revelação da identidade do criminoso é menos extraordinária do que a revelação do método utilizado para praticar o “crime que não poderia ser cometido”.

E é exatamente isso que o leitor encontrará nesta antologia, a primeira dedicada esse subgênero no Brasil, que reúne contos da primeira fase da literatura detetivesca, desde os mestres isolados do século 19 até a década de 1930, considerada por muitos a Era de Ouro desse tipo de narrativa.

Desde autores mais badalados como Sir Arthur Conan Doyle, Maurice Le Blanc e Edgar Allan Poe até autores menos conhecidos do grande público como Jacques Frutelle, Mellville Davisson Post e R. Austin Freeman, Braulio selecionou e traduziu 10 pérolas narrativas que imergirão o leitor nesse grande quebra-cabeça. A edição da Bandeirola, como sempre, conta com um trabalho editorial impecável pelas mãos e mentes talentosas de Sandra Abrano e Helena Dozz, baluartes dessa pequena, porém fantástica, fábrica de histórias.

Entre as incríveis pérolas contidas nesta seleção, os leitores encontrarão alguns mistérios que flertam com o horror e o sobrenatural, promovendo algumas cenas de medo e tensão. Entre esses, destaco os seguintes:

O MISTÉRIO DE DOOMDORF (1914)

Nesse conto de Melville Davisson Post, conhecemos Tio Abner, um puritano movido por uma fé inabalável na justiça divina.

Vivendo em uma comunidade do interior da Virgínia Ocidental, em uma época anterior a Guerra Civil Americana, Tio Abner desvendava crimes em nome da fé. Como um profeta do Antigo Testamento, ele bradava com voz firme a justiça divina e aplicava a vara da correção. Um profundo conhecedor da Bíblia e das ações humanas. E era exatamente esse comportamento do personagem que o identificou como o primeiro detetive de Historical Mystery — o mistério policial embasado no pensamento, nos hábitos e na cultura de uma época específica da História.

Acompanhado pelo juiz Randolph, Tio Abner vai até a casa de um comerciante de bebidas que está causando um enorme prejuízo econômico e moral (e espiritual) na comunidade para tomar providências e desativar aquele antro de Satanás. O que eles não esperavam é que fossem se deparar com uma cena de assassinato. Teria a justiça divina chegado antes deles? Logo o leitor perceberá que esse é um mistério muito mais complexo do que parece. Afinal, como solucionar um caso em que o assassino não é o responsável pelo crime? É aí que entra a genialidade do Melville, que constrói uma narrativa onde a sensação de estranheza envolve constantemente o leitor, perdido em uma atmosfera de dúvidas (e medo!), impossibilitando-o de descobrir a verdade até o seu derradeiro e surpreendente final.

UMA PASSAGEM NA HISTÓRIA SECRETA DE UMA CONDESSA NA IRLANDA (1838)

Sheridan Le Fanu é conhecido no meio literário como autor de uma das mais famosas obras de Terror: Carmilla – A Vampira de Karnstein. No entanto, sua obra se estende a outros trabalhos, que passeiam entre o fantástico, o gótico e o policial. E uma de suas obras menos conhecidas no Brasil está o conto Uma passagem na história secreta de uma Condessa na Irlanda, publicado pela primeira vez em 1838, na Dublin University Magazine, considerado por alguns críticos como o primeiro conto de crime de “quarto fechado”.

Esse conto apresenta um elemento, curiosamente, pouco explorado até hoje dentro desse gênero: a história de um crime de quarto fechado narrada do ponto de vista da vítima. Aqui acompanhamos a tragédia da Condessa D_____, contada por ela mesma em uma longa carta entregue a um narrador anônimo. Herdeira de uma fortuna, a protagonista é enviada aos cuidados de seu tio paterno, que administra uma mansão, onde mora com seus dois filhos e uma empregada. Desde o início, o leitor tem ciência de uma tragédia ocorrida na família, anos atrás, e que algo muito errado está acontecendo naquele lugar. Sozinha e sem saber em quem confiar, a futura Condessa começa a perceber que não há escapatória desse pesadelo e que é uma questão de tempo até que o verdadeiro Mal se revele e a morte recaia sobre os personagens.

Le Fanu situa o leitor dentro de uma trama claustrofóbica, no melhor estilo gótico, com mansões enormes e corredores escuros, segredos familiares e o medo diante das incertezas. É notável como o autor constrói uma narrativa atmosférica, aumentando a tensão gradualmente, mergulhando a personagem em uma espiral de medo e angústia. E, mesmo o leitor sabendo de antemão que ela permanecerá viva para nos contar sua história, nada lhe preparará para o que o aguarda num desfecho surpreendente.

Um conto que, certamente, chocou o público do Século XIX e vai surpreender os leitores dessa antologia.

O PROBLEMA DA CELA 13 (1905)

Esse conto já chama atenção devido o seu autor. Jacques Frutelle foi um dos mais celebrados e bem sucedidos escritor de mistério. Ele vivia o auge de sua carreira quando teve seu destino selado a bordo de um famoso transatlântico que afundou após bater em um iceberg. Isso mesmo, o Titanic!

Neste que foi um de seus últimos textos publicados, conhecemos o engenhoso Professor Augustus S.F.X Van Dusen, “um raciocinador implacável e petulante“, também conhecido como A Máquina Pensante.

A particularidade dessa história é que não temos um crime a ser investigado, mas “um duelo entre a engenhosidade individual e um sistema de vigilância coletivo”. O Professor aposta com seus amigos que é capaz de escapar de uma prisão de segurança máxima. Porém, como ele e o leitor logo percebem, essa é uma situação muito mais complicada do que aparenta e, não bastasse esse desafio eletrizante e cheio de empecilhos à la Prison Break, temos a suposta presença de um fantasma noturno assombrando os corredores da prisão.

A MALDIÇÃO DO LIVRO (1933)

Um dos detetives mais inusitados da literatura é, sem dúvida, o Padre Brown, criado por G.K Chesterton.

Em “A Maldição do Livro”, temos um objeto envolto em um intrigante mistério com ar sobrenatural: um livro, capaz de subtrair da face da Terra todo aquele que ousar abri-lo. A cada hora, há uma nova vítima e o Professor Openshaw, um estudioso dos fenômenos paranormais, está prestes a perder a sanidade diante desse caso de solução impossível.

E é aí que entra o Padre Brown, “um dos mais improváveis detetives da história da ficção policial”, como afirma Braulio na introdução do conto para a antologia – “Em suas histórias, todos imaginam que ele, por ser padre, acredita no sobrenatural — e ele se mostra, ao fim e ao cabo, o mais prático, objetivo e lógico dos pensadores, sem abrir mão de sua fé.”

Temos ainda um intrigante crime orquestrado por ninguém menos que L. Frank Baum, autor de “O Mágico de Oz”. Um assassinato investigado pelo famoso ladrão-detetive Arsène Lupin. A obra-prima de Edgar Allan Poe que inaugurou o gênero detetivesco. E muito mais!

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