Do horror corporal à decadência humana em As Ruínas Futuras

Por Ismael Chaves

Foi neste ano que li uma das melhores coletâneas de histórias de terror da minha vida: Abismo em Chiaroscuro (tem resenha aqui). Ali tive meu primeiro contato com a ficção de Thassio Rodriguez Capranera, através do conto “Ditirâmbos na Cantábria Antiga”, uma mescla de folk horror e horror cósmico, que homenageava os pesadelos goyescos através de um ritual de descrições vívidas e repugnantes. Eu nunca havia lido algo como aquilo antes. E nem sentido nada parecido.

Até ler outro conto seu, “O robe amarelo”, que me deixou igualmente desnorteado e com vontade de gritar. Foi então que eu percebi que estava diante de um daqueles autores raros, um construtor de palavras capaz de manipular os sentimentos e reações do leitor.

O terror é um gênero que mexe com as sensações humanas de formas diferentes. Nem sempre pelo medo – é bom lembrar. As vezes, o horror é tão abominável, que outras emoções são liberadas para emitir a catarse.

Sentimentos de repulsa, nojo, ânsia, choque, confusão e raiva. As Ruínas Futuras, livro de estreia do autor, é a decadência absoluta do ser humano. É a descontrução desse indivíduo, tolo, mesquinho, frágil, arrogante, vil…num monte de estrume e esperma.

Os contos desse volume percorrem as ruas lúgubres de uma São Paulo imaginária, quase onírica, com seus lampiões movidos a querosene e a vida noturna dos boêmios, regada a álcool, jogos, sexo e, ocasionalmente, alguns eventos estranhos.

Nesta “Paulicéia Decadente”, o fantástico se apresenta de forma sutil – no sentido mais todoroviano possível – como em “O fazedor de relíquias”, onde somos apresentados a um possível místico que vive isolado em um palacete, capaz de oferecer a sorte pelo preço certo. Ele pode ser tanto um magista verdadeiro, quanto uma fraude completa. Mas isso nós nunca saberemos – e nem os infelizes que decidiram apostar suas vidas na “sorte” dele.

Mas, se o sobrenatural é apenas uma possibilidade distante nesse livro, não faltam, contudo, elementos grotescos e bizarros que darão um embrulho no estômago do leitor.

Em “O homem do nariz infalível”, o horror físico e corporal invadem as páginas através da descontrucão metamorfoseada do ser humano em um ser abjeto, movidos por instintos animais. A forma do autor narrar e descrever a decadência humana é o ponto alto de sua prosa. Quase dá para sentir o fedor através das páginas!

A mesma decadência pode ser vista em outros contos, como “Mas que feio!!!”, em que um sujeito misterioso se isola, todas as noites, em um canto escuro num bar, atraindo os olhares inquietos e preconceituosos dos demais clientes. Thassio trabalha com frases marcantes, de um impacto visual que dilacera o leitor. E quando a intolerância e a demonização do outro atingem seu ápice, nada mais resta ao oprimido do que tornar-se opressor. Uma catarse tão violenta quanto uma navalha afiada, remexendo nas nossas entranhas.

No decorrer dos contos, o leitor tem a sensação de que toda a esperança foi jogada num triturador e moída até se transformar numa pasta nojenta e repulsiva. A sensação de esmagamento e vazio irá acompanhá-lo por um bom tempo. Assim é a ficção de Thassio Capranera: o horror em seu estado puro!

É preciso destacar a belíssima edição da Raphus Press – um acabamento artesanal que transmite essa sensação de tomos obscuros e proibidos, como livros heréticos que não deveriam vir à luz em um mundo dito civilizado. O projeto gráfico inclui fotografias, cuidadosamente selecionadas pelo editor Alcebiades Diniz (que também assina um posfácio), de uma outrora civilização em ruínas, dialogando perfeitamente com a natureza corrompida dessa cidade e seus habitantes, almas vazias e corruptas que flanam pelas ruas noturnas como fantasmas de uma época que não existe mais, senão no reino dos sonhos produzidos pelo éter.

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