O som e a fúria em “Volumes Dissonantes”

Por Ismael Chaves

13 pessoas distintas vivenciaram fatos perturbadores e inexplicáveis. Apesar dia depoimentos, a polícia não consegue resolver o mistério. Mas o que esses casos tem em comum? Todas essas pessoas tiverem contato, direta ou indiretamente, com a música de um misterioso jazzista, que toca todas as sextas-feiras em um bar cujo nome e localização ninguém é capaz de lembrar.

Essa é a premissa dos 13 contos presentes na antologia “Volumes Dissonantes”, organizada pelos autores Oscar Nestarez e Thassio Rodriguez Capranera, e publicado pela Editora Diário Macabro.

Contando com autores já consagrados e novos nomes, os leitores encontrarão aqui histórias muito bem desenvolvidas e perturbadoras que caminham entre o terror psicológico, o noir e o gore. Preciso destacar que, embora todos os autores tenham partido da premissa básica, todas as histórias são extremamente originais, com características próprias. Em nenhum momento pareceram repetitivas. Pelo contrário, me surpreendi a cada conto. Cada autor apresentou um novo enigma, um novo pesadelo e, como seus personagens pela música, senti-me hipnotizado a seguir lendo.

Temos o clima noir de mistério e paranóia com um final misterioso em “Coda” de Camile Queiroz, uma excelente escritora e resenhista que vem se tornando um dos novos nomes da Literatura Fantástica (fiquem de olho!). Larissa Prado já é conhecida por inserir elementos oníricos e psicológicos em suas tramas altamente perturbadoras, explodindo a cabeça de seus leitores no processo e em “Delirium Tremens” ela cria um de seus melhores contos. Outro nome que vem ganhando destaque é o de Úrsula Antunes, e em “Lullaby” ela cria uma trama inquietante unindo temas terror e temas sociais para contar sobre uma mulher grávida que vive assombrada após ouvir um vinil antigo e misterioso trazido pelo marido. Em “As Frequências Etéreas”, Thassio Rodriguez Capranera junta um grupo de amigos improváveis em uma estranha e urgente reunião noturna (será um clube? uma seita), para analisar documentos sobre o estranho desaparecimento de um de seus membros. Em “Depoimento 1.412”, Daniel Freitas apresenta o diálogo entre um policial e uma acusada, durante um interrogatório. A medida que o depoimento avança, a história vai ficando mais estranha e assustadora, prendendo a atenção do leitor ávido para descobrir o surpreendente final. Oscar Nestarez é um dos poucos autores que, a meu ver, sabe trabalhar com sexo e horror numa mesma história e “Quando ela sussurra para mim” é como uma melodia fatal e sedutora, prestes a grudar em você. Alcebiades Diniz é, sem dúvida, um dos principais nomes da literatura especulativa hoje, dentro e fora do Brasil, e nós merecemos um livro de contos só seu publicado aqui o mais urgente possível e um exemplo é “Trenodia para a noite infinda”, certamente o conto mais explosivo dessa coletânea! “Hymnus in Ioannem”, de Márcio Pacheco, tem uma ótima atmosfera de thrilher, e vai ficando mais fascinante e perturbador a medida que nos aproximamos das últimas peças do quebra-cabeça. Dois nomes fazem uma estreia de alta qualidade: Marcelo Miranda e Luiz Fernando com os contos “O Desprendimento” e “Paper Plane”, respectivamente. Contos bizarros e inquietantes de perder a cabeça. Mal posso esperar para ler outras histórias de sua autoria. E por falar em bizarro, nada me preparou para a sequência final de “A sombra sonora da raposa” de Fábio Aresi. Visualmente perturbador e muito bem escrita, essa cena ficará na minha cabeça por um longo tempo.

Não posso finalizar essa resenha sem falar do trabalho do escritor e músico Alex Campelo, o o grande nome por trás desse incrível projeto. Tendo a idéia de unir histórias de horror e música, ele compôs uma trilha sonora especialmente para cada conto, transpondo suas percepções e sentimentos sobre cada história para cada faixa. Claro que cada leitor terá suas próprias percepções e irá reagir de forma diferente a cada história, mas não deixa de ser uma idéia muito interessante.

Parabéns a Nathalia Scotuzzi, editora da Diário Macabro, por abraçar esse projeto e a cada autor. A vontade era de conhecer mais e mais histórias desse universo. Mas, talvez, seja a música falando dentro da minha cabeça.

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