“Repique Macabro” e o terror aickmanesco

Por Ismael Chaves

“Ler Robert Aickman é como assistir a um mágico trabalhar e, muitas vezes, nem tenho certeza de qual foi o truque. Tudo o que sei é que ele fez isso lindamente. Sim, a chave desapareceu – mas, para começar, não sei se ele estava segurando uma chave. Ele é, realmente, o melhor.”

A fala acima é de ninguém menos que Neil Gaiman, um dos autores mais venerados e respeitados da arte contemporânea. E, se esse texto fosse a única coisa que ele já escreveu, já poderíamos considerá-lo um gênio.

Mas, afinal, quem é Robert Aickman?

Tentar explicar isso é quase tão complicado quanto falar de seus contos. Robert Aickman é considerado o grande artesão das histórias de horror modernas, ou “strange tales” (histórias estranhas), como o próprio autor denominava a sua arte. Isso porque, ao longo de três décadas, o escritor britânico desenvolveu uma arrojada abordagem de histórias insólitas, muitas vezes borrando os limites do horror, do weird e do gótico.

Há algo em suas histórias que escapa à lógica do leitor. Um elemento fora de lugar aqui, uma frase enigmática lá, e o leitor sente que há algo inquietante no ar, um estado de perturbação que ele não sabe de onde vem, nem mesmo se é real, mas que o acompanha como uma sombra invisível ou um zumbido no cérebro. E de repente você se sente num pesadelo escrito por Franz Kafka e dirigido por David Lynch – mas esses nomes são ilusões, uma tentativa de familiaridade que o cérebro busca desesperadamente ancorar em um labirinto dentro de uma casa de bonecas. A essa sensação desconcertante, um medo irracional que fica após ler um conto desse estranho autor, chamamos “aickmanesco”. E acredite, você vai ficar dias olhando para a parede, para o vazio dentro de si mesmo, buscando uma definição para algo que você não sabe o que é. E então, estranhamente, vai querer sentir isso de novo… e de novo…e de novo!

Pela primeira vez em língua portuguesa, “Repique Macabro e Outras Histórias Estranhas” é um esforço conjunto das editoras Ex Machina e Sebo Clepsidra para apresentar ao público brasileiro esse grande e misterioso autor, que tem entre seus fervorosos admiradores Neil Gaiman, Ramsey Campbell, Mariana Enriquez, Peter Straub e S.T. Joshi.

Com traduções de Alcebiades Diniz , Ronaldo Gomes, Bruno Costa e Oscar Nestarez (os dois últimos também assinam o projeto editorial juntamente com Cid Vale Ferreira e Marcelo Miranda) – esta coleção inédita em língua portuguesa apresenta 9 narrativas instigantes que levarão os leitores a um estado de pura contemplação e estranheza imaginativa (é impossível concluir as leituras de “The Hospice” e “Ravissante” e não ter a incerteza – porque não existem certezas na obra de Aickman – de que algo se quebrou dentro de você).

Falando sobre alguns contos, temos o já citado “The Hospice”, temos um vendedor viajante que se perde em uma estrada deserta e acaba se deparando com um local estranho e isolado, cuja finalidade tanto ele quanto o leitor desconhecem: é um hotel? um restaurante? um manicômio? Logo , os estranhos hábitos e residentes desse local levarão o personagem (e o leitor) a uma espiral de dúvidas, desconforto, tensão e loucura. No conto “Repique Macabro” temos um casal que decide passar a lua de mel em uma pequena cidade litorânea. Porém, ao chegarem na estação, se deparam com uma cidade vazia e o misterioso badalar de sinos. À medida que a noite avança e os sinos não cessam de tocar, a sensação de uma ameaça inexplicável paira no ar. Já em “Bosque adentro”, durante uma viagem a negócios com o marido, uma mulher fica intrigada com um antigo hotel situado no meio de um bosque. Contrariando os conselhos de seus anfitriões, ela decide se hospedar no local, mas logo percebe que há algo perturbador acontecendo dentro e fora do local, que envolve seus estranhos hóspedes. Em “O quarto interior”, uma velha casa de bonecas adquirida em um misterioso antiquário, esconde um estranho segredo, algo que afetará profundamente a vida de sua nova dona e seus familiares – e não, isso não vai acabar como você imagina. E, em “O mar cor de vinho”, temos a união avassaladora entre o sagrado e o profano, quando um turista ignora todos os avisos que recebe e decide investigar o segredo de uma ilha abandonada. E sobre “Ravissante”…bem quanto menos você souber, maior será o estrago na sua cabeça, melhor!

O livro companha também um posfácio de Phillip Challinor, maior autoridade acadêmica nos estudos aickmanescos, e uma análise do pesquisador e editor Cid Vale Ferreira sobre o conto “Páginas do diário de uma menina”, que ganhou o primeiro World Fantasy Award de melhor conto. O prêmio é hoje considerado o mais importante dedicado à literatura fantástica no mundo e já consagrou nomes como Ramsey Campbell, Richard Matheson, Stephen King, Neil Gaiman, Joyce Carol Oates, Peter Straub e Ursula K. Le Guin.

Muito ainda há de ser comentado e escrito sobre Robert Aickman e “Repique Macabro e Outras Histórias Estranhas”. Enquanto isso, fica a dica para conhecerem a intrigante obra desse autor e adquirirem essa edição histórica no site da editora Sebo Clepsidra. Alguém já afirmou que “só não é louco por Robert Aickman quem nunca o leu!”. E isso, sim, faz todo o sentido.

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