O pós-mundo assustador de “Colapso”

Por Irka Barrios

Em “Colapso”, o autor Roberto Denser nos apresenta um futuro nada promissor. O apocalipse se instalou cumprindo todas as piores promessas de nosso imaginário. Partes da Terra sofreram resfriamento até congelar, outras viram o deserto avançar de forma implacável.

Ironia do destino, o único lugar habitável é o Brasil. Mas não podemos afirmar que o espaço disponível é habitado por humanos. Não é. O que restou do ser humano quarenta anos após o Marco Zero é assustador. Não há confiança, a comida é escassa, os recursos são disputados à bala (ou flecha). E há o horror da imposição da força bruta. Se você tem o azar de nascer mulher num mundo tão hostil, proteja-se bem.

A história começa com um diálogo revelador entre o Velho e o Garoto, personagens imprescindíveis na trama. Seus nomes não são escolhidos ao acaso, são denominações que enfatizam a ruptura entre dois mundos. Podemos, a partir deste início, tecer diversas reflexões sobre expectativas, causas e consequências de nossos atos, o custo e o gosto amargo de sobreviver. Denser se apropria das nossas dores atuais e as escancara ao descrever atitudes e relações. Os demais personagens compõem outros quatro núcleos distintos que, com o completo controle narrativo do autor, se desenvolvem em arcos próprios até se cruzarem, na segunda parte do romance.

O personagem central é Camargo, um homem duro, cheio das convicções patriarcais, acostumado a vencer pela força. Camargo tem lá suas virtudes, não tolera violência sexual dentro do grupo, protege as duas mulheres que o acompanham, embora não as enxergue como iguais, mas submissas à sua autoridade. Amanda é sua esposa e Dona Maria é a curandeira.  Nenhuma participa ativamente das decisões. Camargo é o líder único, precisa fazer escolhas difíceis mesmo que suas falas e pensamentos denunciem certa rejeição à tal responsabilidade. Após um evento catastrófico, Camargo decide sair em busca de um novo lugar para o grupo se estabelecer. E é a partir desta jornada que os outros núcleos de personagens vão se juntando ao grupo, às vezes de forma amigável, outras vezes em confrontos sangrentos.

A despeito da jornada do grupo de Camargo, outros também se unem e esses choques produzem cenas de violência. O leitor se solidariza com a vida de Bia (que sofre as maiores atrocidades do livro) e percebe um contraponto quando, já com a narrativa avançada, é apresentado à Diana. Quanto mais os ciclos se fecham, mais a tensão cresce, encaminhando a história para um clímax poderoso. O desfecho traz certa esperança, caso você seja um homem que vive no mundo de “Colapso”. Se você for mulher, a esperança é bem menos reconfortante.

Com referências bíblicas, mitológicas e shakespeareanas, Denser nos apresenta um futuro assustador.

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