O terror folclórico de “Dezessete Mortos”

Por Ismael Chaves

Publicado no início da pandemia de Covid-19 – juntamente com outros títulos da AVEC Editora disponibilizados online como incentivo a leitura durante o isolamento social – “Dezessete Mortos” é uma antologia que reúne contos dispersos e, por assim dizer raros, que há muito encontravam-se esgotados, da escritora, professora e historiadora Nikelen Witter. E o livro acaba de vencer o Prêmio Açorianos (2022) na categoria Conto.

Aqui, deixando de lado a Ficção Científica/Steampunk de “Guanabara Real: A Alcova da Morte” (co-escrito com Enéias Tavares e A.Z Cordenonsi) e “Viajantes do Abismo”, a autora resgata causos e lendas do folclore rio-grandense, frutos de suas pesquisas ou simplesmente lembranças da infância.

Felizmente, o folclore nacional tem sido resgatado na literatura, através de obras incríveis que inserem os mitos em narrativas de aventura, terror e ficção-científica. Exemplos como Christopher Kastensmidt (“A Bandeira do Elefante e da Arara”), Gabriel Billy (“Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos”), Marcos DeBrito (“O Escravo de Capela”) e Gian Danton (“Cabanagem”) – só para citar alguns.

Mas os contos de Nikelen possuem um sabor mais tradicionalista, como em “causos” narrados um roda de fogo de chão no meio do mato. Um estilo que lembra bastante aquele utilizado por Márcio Benjamin (“Maldito Sertão” e “Agouro”), Antonio Schimeneck (“Horas Mortas”) e Coelho Netto (“Treva” e “Sertão”).

Histórias que ora passam-se no período imperialista, colonial ou nos dias de hoje. Todas tem em comum um terror sutil, não explícito, que espreita como sombras em um local mal iluminado ou o silêncio sepulcral numa caminhada noturna. São as histórias com raízes no passado, mas que permanecem vivas e pulsantes no hoje, encontrando eco em situações que, independente do espaço-tempo, ainda assombram o brasileiro.

Não posso deixar de mencionar o incrível trabalho da artista Luciana Minuzzi, responsável pela capa e as belíssimas ilustrações internas que muito enriqueceram a edição.

Se você aprecia o nosso folclore ou simplesmente valoriza boas histórias, te aprochega vivente.

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