O terror feminista de “As Vozes Sombrias de Irene”

Por Ismael Chaves

Valorizar a Literatura nacional, especialmente a contemporânea e independente, é algo que já está no meu DNA e sempre fico muito feliz quando vejo veículos de mídia e/ou importantes premiações reconhecendo o trabalho desses autores e autoras. E, claro, melhor ainda quando é literatura de gênero! A resenha de hoje é muito especial por três motivos: 1) “As Vozes Sombrias de Irena” foi uma das minhas leituras preferidas do ano passado, 2) março é o mês em homenagem às mulheres e, 3) a autora Mia Sardini recebeu a medalha de prata do Prêmio Ecos de Literatura na categoria Melhor Autora Nacional.

“Em 1988, na Tchecoslováquia, ocupada pela União Soviética, Eva e Sabina, duas irmãs separadas por uma grande diferença de idade, precisam desvendar um segredo de família quando sua avó, Irena, sofre um AVC. Quanto mais Irena se aproxima da morte, mais suas netas percebem a herança sombria que a avó deixa para trás e que pode colocar em risco a vida de todas as mulheres da família.”

Não importa quantos elementos fantásticos uma história possa conter – e esse livro possui vários – nenhum monstro é tão assustador quanto o ser humano. Principalmente se a vítima desse monstro pertencer a um grupo minoritário (mulheres, negros, LGBTQS).

Não é de hoje que autoras mulheres tem produzido muito do que há de melhor na arte do Terror, seja revolucionando o gênero ou mesmo tendo a coragem e voz para denunciar a violência e esteriótipos através da Literatura. Pois Mia Sardini faz parte desse panteão que remonta a nomes clássicos como Mary Shelley ou Ann Radcliffe até autoras contemporâneas como Mariana Enriquez, Irka Barrios , Larissa Prado e Cláudia Lemes.

“As Vozes Sombrias de Irene” , publicado pela AVEC Editora, é mais do que uma fábula de Terror. É um conto de fadas sombrio. Um manifesto contra a toda a desigualdade, preconceito e violência que acomete gerações de mulheres, independente da cor, orientação sexual ou nacionalidade. Mia dá voz a todas as mulheres que vieram antes dela e também aquelas que ainda virão.

Sua história mexe com os medos mais primitivos, não só de um grupo minoritário, mas também de uma sociedade patriarcal, que teme tudo que é diferente, tudo que não entende – mas sobretudo teme perder seu controle sobre os corpos e a história.

“As Vozes Sombrias de Irena” é Terror, Fantasia, mas também é um Drama, que encontra na estreia de sua autora uma maturidade para falar de temas espinhosos, polêmicos, mas necessários. Há cenas surpreendentes, ousadas, que acertarão o leitor como um soco no estômago, diante do Terror do mundo real, de situações atuais, que podem estar acontecendo na casa ao lado, ou mesmo na sua. Não há como ficar indiferente. É um livro que precisa ser lido e debatido por todos.

Para finalizar, é imprescindível destacar aqui o excelente trabalho editorial do Artur Vecchi e da AVEC Editora que, desde sempre, apoia e publica a Literatura Fantástica Nacional, entregando obras de qualidade e revelando alguns dos nossos melhores autores da literatura de gênero. Avante!

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