Somos todos apáticos

por Irka Barrios

“Os mortos não morrem” (filme de Jim Jarmusch, 2019) traz personagens apáticos convivendo num ambiente apático, embora eu não o tenha interpretado como um filme apático. Numa das cenas iniciais,  aparece Miller (Steve Buscemi), um fazendeiro bronco vestindo um boné “Make America white again”. Só mais um idiota empoderado? Sim, mas há muito mais a se observar na cena. Ele conversa com Hank (Danny Glover), e quando a garçonete oferece mais café, ele recusa: “muito preto para mim, sem ofensa, Hank.” E se despede. Hank não reage. Em outra cena, o policial Roland (Adam Driver) se oferece para acompanhar a policial Miner (Chlöe Sevigny) até sua casa. Ela rejeita. “Ok”, ele responde. Nota-se que há interesse entre ambos. São solteiros, jovens numa cidade minúscula, mas algo os impossibilita de expressar emoções. Habituaram-se a uma rotina morna.

Durante vários momentos, pensei: estamos tão apáticos assim?

Será que após cruzar os limites da raiva,  da indignação e da revolta o que resta é essa resignação fria?

O filme leva a algumas reflexões. Há uma tragédia se anunciando, a rotação de Terra, não se sabe bem por que, foi alterada, os canais de notícias apresentam cientistas e opinieiros discutindo exaustivamente. As mudanças são perceptíveis (o dia se torna mais longo, celulares perdem a conexão, relógios param de funcionar, animais fogem ou se tornam agressivos) e não há reação. Todos aceitam bovinamente. Quando o policial Roland supõe que os estranhos acontecimentos prenunciam uma invasão zumbi, seu superior (Bill Murray) aceita a possibilidade sem maiores questionamentos. 

Há, entretanto, o louco. O Eremita Bob (Tom Waits), apartado da sociedade, observa o mundo a partir de sua morada, a floresta. Em momentos pontuais do filme, ele aparece para  julgar, opinar, dizer tudo o que os demais não percebem. É uma consciência alfinetando a população de apáticos (ou zumbis). 

Quando os mortos renascem e a invasão zumbi é tese aceita, os personagens sequer reagem. Protegem-se de forma precária, tomam decisões estúpidas. Aceitam a fatalidade como obra do destino. No ponto alto do filme, o policial Roland, em resposta à ordem de seu superior, repete a fala de Bartleby (“Bartleby, o escrivão”, de Herman Melville), o apático mais famoso da literatura “eu prefiro não fazer”.

E quanto aos zumbis? Eles ressurgem famintos, correto? Sim, eles seguem a regra dos mortos-vivos, a fome por carne humana. Mas também trazem sua carga de apatia: caminham em busca do que lhes movia em vida. Há zumbis fanáticos por antidepressivos, por café,  por wifi, por ferramentas, armas, etc.

E no meio de tanta gente igualzona, sobressai-se a personagem Zelda (Tilda Swinton), a dona da agência funerária. Diferentona, ela é a única com atitude. Mas o filme encontra uma forma criativa de demonstrar que uma pessoa tão destoante não pode pertencer a esse mundo. 

A crítica é leve, talvez um pouco frouxa, mas cheia de referências e homenagens. Numa época em que os debates se esgotam por exaustão e as atitudes ficam esvaziadas, é uma crítica muito bem-vinda. 

E, claro, o filme não trata apenas do que me propus a discutir. Tem muito mais fios a puxar. Antes de escrever, assisti a diversas vídeo resenhas sobre a obra. A maioria delas pontuava mal, alegando que o filme é fraco, o diretor não aproveita as potencialidades do elenco, não aprofunda as questões. Uma crítica considerou o filme panfletário. 

Na última que assisti, e gostei, o apresentador diz: “(no filme) todo mundo sabia que uma catástrofe ia acontecer, ninguém se preparou”. Como habitantes do novo milênio, acho que estamos bem representados.

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