O horror de envelhecer

É inevitável, se você não pretende morrer jovem, deve aceitar uma verdade um tanto incômoda: você vai envelhecer.

O filme “X”, de Ti West, estreia com a intenção de esfregar essa verdade na nossa cara. E a realiza bem. O título remete à classificação utilizada para filmes de conteúdo adulto nos Estados Unidos dos anos 70. Também há uma brincadeirinha a respeito de marcar todos os X, ou preencher todos os requisitos, ilusão de Maxine, a personagem central. O ano é 1979 e a estética apela para a memória afetiva dos amantes dos primeiros slashers.

Fui com sede ao pote, confesso, e essa foi a melhor parte porque tornou a experiência única. Sabia que o filme se propunha a homenagear um gênero que amo. São perceptíveis as honras aos que o antecederam. O novo enfoque, entretanto, superou minhas expectativas. Assisti, ontem, pela segunda vez, porque me senti impelida a escrever sobre a temática, e foi então que as sugestões da primeira vista se transformaram em papo reto. Retíssimo. O que há de monstruoso, deformado e decrépito está (e sempre esteve) ligado ao horror, enquanto o belo é elevado, superior, e nos conduz, naturalmente, à felicidade. Eis o tema central do filme.

A premissa repete os clássicos do gênero: um grupo de atrizes, ator, cinegrafista e produtor partem numa van em busca da locação ideal para um filme que promete revolucionar o cinema. As atrizes sonham alto, desejam o estrelato, o produtor sonha com as cifras que o filme renderá, o diretor sonha com a fama de criar algo que ultrapassará os clichês dos pornôs disponíveis no mercado. Todos, ali, sonham. Ao desembarcarem na locação, um rancho no interior do Texas, deparam-se com um casal de idosos nada simpáticos. Até aí, tudo certo: os velhos já eram, mal não podem fazer. Ninguém liga para o que pensam, menos ainda para o que sentem. Tratam-nos como criaturas que pertencem a outro universo. O olhar de desprezo para o corpo envelhecido fica claro no diálogo que os personagens travam no momento em que confraternizam, após uma tarde de filmagens hot. Temas como sexo, beleza, vigor físico e juventude são exaltados. São temas que nos conectam aos vinte, vinte e cinco anos, quando a velhice era algo tão distante que parecia acontecer só com outros indivíduos. 

Tudo muda, entretanto, quando Pearl, a personagem idosa, chama Maxine, a candidata à estrela do filme, para tomar uma limonada. Levando-a até uma parede de fotografias, aponta para a de seu casamento: “veja, eu também já fui bonita”. Maxine não dá a mínima, a nostalgia da velha não é problema dela.

Depois disso, a matança inicia (é um filme slasher, lembram?) e somos presenteados com cenas belíssimas, de sangue e sexo, vida e morte. Psicanalistas serão bem mais competentes do que eu ao traçarem as diversas interpretações possíveis a partir das reações de Pearl após cometer os assassinatos mais brutais. Somente essa análise, vale o filme. É muito, mas não é tudo. A corrupção da beleza, questão bastante explorada pelo cinema, se apresenta com um viés totalmente novo. Aqui preciso inserir uma informação: a atriz que vive Maxine é a mesma que encarna Pearl, a maquiagem a faz avançar no tempo cerca de oitenta anos. Absorvida pela história, posso dizer que o filme me presenteou com, pelo menos, três cenas memoráveis. Uma, inclusive, revela a coragem do diretor ao trazer o que, para a maioria dos espectadores, será considerado repugnante. Um mergulho despido de preconceitos, entretanto, nos permite refletir sobre coisas que preferimos esquecer, deixar para depois. Ou nunca. A juventude que se esvai é um tema incômodo.

Há, ainda, muito a se observar sobre a versão do filme a respeito da figura, das carências e do gozo do monstro. Alguns aspectos corroboram com o que já é conhecido e estudado. Outros inovam, atualizam.

Evitando spoilers, também queria deixar uma palavrinha sobre o final, que se adequa ao conceito slasher. Mesmo assim, inverte a expectativa, porque traz a mensagem de libertação sexual da mulher. Num primeiro momento, o sabor do libertário nos toma por completo. Mas a cena segue e se torna incômoda. Se aproximarmos bem o olhar, o fim deixa o amargor dessa linha reta e sem retorno que é a vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s